Gordura a mais e leguminosas a menos no prato dos portugueses. Pela primeira vez, carne de aves suplanta a de bovino e a de suíno.

Nos últimos cinco anos, a disponibilidade alimentar em Portugal continuou a mudar e, grosso modo, as proteínas estão a perder lugar para os hidratos de carbono. A carne disponível no país tem caído todos os anos, sobretudo a partir de 2010. Além disso, inverte-se uma tendência: a carne de aves ultrapassa a de bovino e a de suíno, pela primeira vez desde que há registo. Mesmo assim, a proporção de proteína de origem animal ainda está acima do desejável.

Os dados são da Balança Alimentar Portuguesa 2008-2012, um estudo feito pelo Instituto Nacional de Estatística, de cinco em cinco anos. Os resultados mais recentes foram divulgados nesta quarta-feira e permitem “retratar as disponibilidades alimentares e a sua evolução em Portugal, em termos de produtos, nutrientes e calorias, e não a caracterização dos consumos alimentares dos residentes no país”. Ou seja, os dados não mostram directamente o que consumiram os portugueses (e que é aferido no chamado Inquérito às Despesas das Famílias), mas, como sublinha o INE, “há uma relação muito significativa entre as disponibilidades e aquilo que os portugueses consomem”.

O trabalho do INE mostra que, entre 2008 e 2012, existiram “dois períodos marcadamente distintos: até 2010, um período de expansão caracterizado por elevadas disponibilidades alimentares e calóricas; e, a partir de 2010, com reduções acentuadas”. Aliás, “o ano de 2012 detém os níveis mais baixos de disponibilidades alimentares de carne de bovino dos últimos dez anos”. Uma tendência que também foi seguida nos frutos, que, em 2012, caíram para mínimos de 20 anos, nos lacticínios, com mínimos de nove anos, e no pescado, que caiu para níveis dos oito anos anteriores. No que diz respeito a quilocalorias per capita, o valor também desceu ligeiramente para 3963 quilocalorias – mas, mesmo assim, o valor chegava para 1,5 a dois adultos, já que, em termos de consumo, o recomendado é entre 2000 a 2500 por dia.

Há também cada vez menos peixe. Porém, o bacalhau reconquistou o espaço que tinha perdido entre 2003 e 2008 e é agora acompanhado por mais produtos hortícolas. Nos cinco anos em análise, só as hortícolas viram a disponibilidade crescer (5,8%), mas, mesmo assim, estão ainda quase oito pontos percentuais abaixo do recomendado. Os frutos, que caíram 9,5%, estão também oito pontos percentuais abaixo do recomendado e as leguminosas secas, que caíram quase 14%, estão mais de três pontos abaixo do que deviam. Pelo contrário, os lacticínios caíram 4%, mas ainda estão 1,7 pontos acima do recomendado, e os cereais, raízes e tubérculos, que perderam 1%, têm uma disponibilidade 3,3 pontos superior. Os óleos e as gorduras viram a disponibilidade baixar em 2,5% e a categoria “carne, pescado e ovos” caiu 8,2%. Apesar destas duas quebras, a disponibilidade de gorduras está quatro pontos acima do recomendado e, nas carnes, pescado e ovos, há um desvio de 10,4 pontos acima do que seria recomendável.

“Este desequilíbrio continua a ser potencialmente pouco saudável, com uma predominância de proteínas de origem animal e excesso de gorduras, diz o INE, que acrescenta que, “entre 2000 e 2012, as disponibilidades de produtos de origem vegetal perderam importância no total das disponibilidades alimentares, enquanto as disponibilidades dos produtos de origem animal se mantêm sistematicamente acima das observadas na década de 90”.

Numa análise detalhada das disponibilidades por tipo de produto, é possível perceber que, dentro do pescado, que perdeu quase 13%, a maior queda foi nos crustáceos e moluscos (menos 27,2%), com o bacalhau e outros peixes secos, em linha contrária, a crescerem mais de 12%. Já nos lacticínios, que caíram 4%, o leite representa quase 70% do total e foi dos que mais perderam (6,1%). Por outro lado, os cereais, isoladamente, viram a sua disponibilidade aumentar, ao contrário das raízes e tubérculos. A subida foi conseguida sobretudo devido ao milho e ao arroz.

Do lado da fruta, apesar da queda geral, a maçã continuou a liderar as disponibilidades, com a laranja e a pêra a reforçarem a sua presença. Já em termos de gorduras, o azeite viu a sua produção crescer, ao contrário de produtos como a banha, o toucinho e as margarinas. Em termos de produtos disponíveis para café e sucedâneos, cacau e chocolate, as quantidades aumentaram 4%, sobretudo à custa do café e sucedâneos.

O estudo Balança Alimentar Portuguesa indica a quantidade disponível no país para os vários produtos alimentares e bebidas, tanto nas casas dos portugueses como fora dos alojamentos. A disponibilidade é calculada a partir do que é produzido e importado, descontando as exportações e o que é utilizado para alimentação animal, para uso industrial ou as perdas. Portanto, só de forma indirecta este indicador ajuda a perceber o perfil de consumo dos portugueses.

Em termos gerais, salienta o INE, o padrão de alimentos continua a ser o da dieta mediterrânica, que Portugal, juntamente com outros países, conseguiu inscrever em 2013 na lista de património imaterial da humanidade da UNESCO. No entanto, quando se comparam os alimentos disponíveis com o consumo recomendado na Roda dos Alimentos, é possível perceber que existem várias desproporções, com um excesso de carne, pescado, ovos, óleos e gorduras e um défice de hortícolas, frutos e leguminosas secas.

Fonte: Público

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2015-06-14T17:16:08+00:0002/04/2014|Categorias: Estatística|Tags: , , |0 comentários
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