Após a tentativa falhada do Governo de comprar a Cosec, o banco público prepara a criação de uma seguradora que apoie as empresas exportadoras.

A Caixa Geral de Depósitos (CGD) foi incumbida pelo Governo de estudar a criação de uma seguradora de crédito alternativa à Cosec. Assim, o Estado criará um instrumento para apoiar as empresas exportadoras, após a tentativa fracassada de comprar a Cosec ao BPI e à francesa Euler Hermes.

A revelação foi feita pelo vice-presidente da Caixa, Francisco Bandeira, na quarta-feira, em Vila Nova de Gaia. “Estamos a desenvolver um novo instrumento na área dos seguros de crédito para apoiar as exportações”, afirmou o vice-presidente do banco público, na conferência que a CGD e o Diário Económico realizaram. Fonte oficial da Caixa confirmou ao Diário Económico que em causa está a criação de uma alternativa à Cosec, a seguradora de crédito que domina o mercado português e cujo controlo, o Estado tentou, em vão, adquirir no ano passado.

Para a Caixa, que é dona do maior grupo segurador nacional, a entrada nos seguros de crédito à exportação é um passo natural no âmbito da estratégia que tem vindo a ser seguida. Além disso, o banco do Estado está decidido a aumentar a sua quota no mercado do ‘trade finance’ – actualmente de 8%, face aos 27% do líder BES -, no âmbito de uma estratégia global voltada para as Pequenas e Médias Empresas (PME).

“Mais do que sermos o banco das PME, queremos ser o banco das melhores PME”, afirmou Francisco Bandeira.

Além disso, a Caixa tem orientações do accionista Estado para apoiar as empresas exportadoras como forma de potenciar o crescimento económico do País, num momento económico particularmente desafiante, tal como Francisco Bandeira e o presidente do banco público. Faria de Oliveira, notaram no referido jantar.

Para os dois responsáveis do banco do Estado, as exportações são a chave para sair da crise, como aliás o provam os dados do crescimento do terceiro trimestre ontem conhecidos.

No entanto, há quem levante objecções à entrada do Estado nos seguros de crédito, devido ao risco de se utilizarem critérios menos exigentes na análise do risco das empresas, tomando decisões com base em políticas voluntaristas e pouco racionais. Os críticos apontam ainda o facto de a informação sobre as empresas e os países estar nas mãos de grandes empresas do sector, como a própria accionista francesa da Cosec.

“Os seguros de crédito são um negócio de informação, que permite conhecer o risco de um país ou de uma empresa através de uma notação de ‘rating’. Quem domina essa informação são empresas como a Euler Hermes, a Atradius ou a Coface, que, no conjunto, dominam perto de 90% do mercado mundial de seguros de crédito. Se a Euler deixar de ser accionista, a Cosec perderá essa informação”, afirmou Paulo Morais, director-geral CyC em Portugal, aquando do anúncio da intenção de nacionalizar a Cosec. Paulo Morais concluía que “se o Estado assumir esses riscos, serão os contribuintes a pagar os sinistros que daí advierem”.

Governo não se entendeu com a Euler Hermes.

O Governo tentou comprar a Cosec em 2009, num processo que causou alguma polémica, devido à existência de versões diferentes por parte do Executivo e do accionista francês Euler Hermes.

O primeiro-ministro José Sócrates afirmou no Parlamento, em Maio de 2009: “O Estado tem a intenção de comprar

[a Cosec] para ter uma intervenção mais directa [na seguradora] e para garantir às empresas exportadoras nacionais um acesso ao seguro de crédito”.

Porém, o entusiasmo de Sócrates recebeu um balde de água fria no dia seguinte, quando a Euler Herlmes garantiu que está em Portugal “numa perspectiva de longo prazo” e que não estava nos seus planos vender as suas acções.

O Governo manteve, porém, a sua versão e em Julho do ano passado o ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, garantiu na Assembleia da República que a compra da Cosec estava já acordada com o BPl e com a Euler Hermes.

Dias depois os franceses voltaram a desmentir o Governo, garantindo nem sequer terem sido contactados pelo Executivo. Já o BPI admitiu ter chegado a acordo para a venda dos seus 50% da Cosec por 27,5 milhões de euros, colocando como única condição a aceitação do negócio por parte da Euler Hermes.

Mas esta aceitação nunca foi conseguida, pelo que o Governo procura agora a criação de uma alternativa.

BES cria linha de crédito para Cabo Verde

O Banco Espírito Santo (BES) lançou uma linha de crédito de 50 milhões de euros para apoiar as exportações para Cabo Verde, disse ao Diário Económico fonte oficial da instituição liderada por Ricardo Salgado. Esta linha de crédito foi estabelecida com o BES Cabo Verde, com o objectivo de complementar a sua actual oferta para o mercado deste país africano de expressão portuguesa. O novo instrumento de crédito destina-se a “apoiar as empresas que exportem para Cabo Verde, e possibilita aos clientes do BES a cobertura do risco associado às exportações, bem como o acesso à antecipação ias receitas de exportação”, acrescentou a mesma fonte oficial do banco.

POLEMICA COM A COSEC

13/05/2009

José Sócrates anuncia compra da Cosec no Parlamento. “O Estado tem a intenção de comprar [a Cosec ] para ter uma intervenção mais directa [na seguradora] e para garantir às empresas exportadoras nacionais um acesso ao seguro de crédito”. A resposta dos accionistas franceses veio no dia seguinte: “A Euler Hermes está em Portugal numa perspectiva de longo prazo e não está a considerar vender as suas acções”.

01/07/2009

Teixeira dos Santos garante que a compra está fechada. “A compra da Cosec já está acertada com o BPI e com o outro accionista [Euler Hermes] e está acertada nos mesmos termos, garantiu na Assembleia da República. Teixeira dos Santos optou na altura por não revelar o valor do negócio.

04/07/2009

Euler Hermes nega acordo e diz não ter sido sequer contactada pelo Governo português. “Até ao momento, a Euler Hermes não teve contactos com o Governo português nem recebeu nenhuma proposta oficial”, disse ao Diário Económico fonte oficial da empresa. A mesma fonte negou ainda a existência de negociações formais.

21/07/2009

BPI fecha acordo com o Governo, fazendo-o depender da sua replicação junto dos accionistas franceses. Por metade do capital, o BPI aceitou pagar 27,5 milhões de euros.

16/09/2009

Em declarações ao Diário Económico, fonte oficial da Euler Hermes passou a bola para o lado do Executivo, referindo que este “terá de aceitar os pontos ainda em aberto”.

9/12/2009

Vieira da Silva, em entrevista ao Económico, sugere que a compra da Cosec terá deixado de ser uma prioridade para o Executivo.

Empresas ainda criticam os seguros de crédito

Mas as empresas exportadoras continuam a ser penalizadas.

As empresas exportadoras nacionais continuam a ser penalizadas pelo aperto nos seguros de crédito. Mesmo assim, a maior parte das empresas admite que a situação já não é tão grave.

“Esta questão não tem só a ver com as seguradoras, mas passa muito pelas empresas com quem trabalhamos”, afirmou José Alexandre Oliveira, em declarações ao Diário Económico. Para o presidente da Riopele, as coisas “eram dantes muito mais estáveis”. ” E não estou apenas a falar da actividade do sector têxtil. Hoje temos que trabalhar baseados na confiança que temos nos clientes”, sublinhou.

Já Fortunato Frederico, presidente do grupo Kyaia diz que mais do que as empresas terem dificuldades em recorrer aos seguros de créditos os empresários temem que, “em Janeiro, os seguros não sejam renovados”. Fortunato Frederico revela que sempre que está com algum membro do Governo fala no assunto, “porque é vital para as empresas”.

João Miranda, presidente da Frulact tem o mesmo entendimento e considera que, “nos últimos três anos, os ‘plafonds’ têm vindo a diminuir”. “O Governo devia servir para contragarantir evitando assim perturbações entre os clientes”. Até porque, como explica o presidente da Frezite, José Manuel Fernandes, “para certos mercados, os seguros de crédito não estão a funcionar”.

Mira Amaral, presidente do BIC, reconhece a existência de uma situação conjuntural que levanta grandes problemas às empresas. “Às vezes, mesmo com garantias reais, não é possível desbloquear os problemas de concessão dos seguros de crédito”, reconhece.

Por seu turno, Paulo Nunes de Almeida, vice-presidente da AEP diz que “as empresas estão a negociar com vantagem relativamente ao que sucedia há bem pouco tempo”, numa alusão ao aperto que as empresas sentiram e que levou o Estado a equacionar a nacionalização da COSEC.

De resto, o presidente da CIN, João Serrenho considera normal que “as seguradoras terem optado por defender-se, numa altura em que o crédito passou a ser escasso”. “As empresas seguradoras olham apenas para o balanço das empresas e não têm em conta se a empresa é cumpridora ou não”, sublinha a presidente do grupo Probos. Conceição Gomes adianta que “este papel da concessão de seguros de crédito devia estar nas mãos dos bancos que conhecem melhor as empresas”.

Exportadoras têm mais 278 milhões em apoios

Candidaturas abrem segunda-feira e inserem-se nos incentivos atribuídos pelo QREN.

As empresas têm a partir de segunda-feira uma nova linha de apoio às exportações. São 278 milhões de euros que estão ao dispor das empresas que querem fazer novos investimento para aumentar a sua base de produção de bens transaccionáveis, para a criação de novas empresas inovadoras e ainda para promover acções de promoção nos mercados externos. A palavra de ordem é exportar.

A linha foi anunciada pelo ministro da Economia na comissão de Orçamento e Finanças aquando da discussão do Orçamento do Estado. As empresas interessadas em obter este apoio, concedido no âmbito dos fundos comunitários (QREN), têm até 10 ou 31 de Janeiro, consoante os concursos em causa para apresentar candidaturas.

Tal como em todos os concursos lançados no âmbito do QREN há regras a cumprir. Assim, por exemplo, são disponibilizados 173 milhões de euros para projectos de investimento produtivo “que se traduzam na produção de novos bens e serviços”. Mas para tal, no ano anterior à apresentação do projecto, mais de 20% das suas vendas têm de ser ao exterior. Por outro lado, cada projecto só pode receber um máximo de 25 milhões de euros, excepto os programas enquadrados no Programa Operacional Regional do Alentejo e do Algarve que têm um limite mínimo de despesa de 75 mil euros. Por outro lado, as despesas com formação de recursos humanos não poderão representar mais de 30% das despesas elegíveis totais do projecto.

Os quatro concursos agora lançados têm por objectivo “apoiar investimentos empresariais que reforcem a capacidade das empresas exportadoras no sentido de assegurar ganhos mais rápidos em termos de uma maior orientação do PIB para a procura externa”, pode ler-se nos avisos de apresentação das candidaturas, a que o Diário Económico teve acesso.

Já para os concursos para desenvolver acções de promoção em mercados externos, destinam-se apenas a PME e, no ano anterior à apresentação da candidatura, apenas tinham de exportar mais de 10% da sua produção. Este concurso decorre até 14 de Janeiro e tem uma dotação inicial de 41,5 milhões de euros.

Fonte: Aicep

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2016-12-01T15:39:12+00:00 18/11/2010|Categorias: Portugal|0 comentários
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