Uma máquina de corte com extrema precisão, um gel dentífrico numa embalagem de aerossol e um grelhador de exterior vencedor de um prémio de “design” são três exemplos do sucesso que o sector metalúrgico e metalomecânico português está a obter no exterior. Responsável por quase um terço das exportações nacionais, o segredo está na aposta feita na inovação.

A CEI – Companhia de Equipamentos Industriais é uma PME nacional, pouco conhecida dos portugueses, mas que as grandes marcas internacionais como a Nike, a Adidas, a Reebok e a Timberland conhecem bem. As fábricas de calçado da Nike na China, por exemplo, utilizam as máquinas fabricadas pela CEI para produzir sapatos. Tudo porque esta pequena PME portuguesa fabrica máquinas de corte com sistema de jacto de água, uma tecnologia inovadora que permite fazer cortes com extrema precisão, aproveitando ao máximo as matérias-primas, num processo que é mais rápido devido à utilização do jacto de água, poupando tempo e dinheiro às empresas.

Neste nicho de mercado do sistema de corte por jacto de água aplicado à indústria do calçado, a CEI ocupa uma posição de destaque a nível mundial, com uma quota de mercado de 30%. A empresa actua ainda no sector automóvel, onde cria sistemas por jacto de água para serem aplicados ao corte de estofos, por exemplo, e no sector das rochas ornamentais, exportando em larga escala para o Médio Oriente, onde a quota de mercado se situa nos 30%.

A CEI é apenas um exemplo do que se faz no sector metalúrgico e metalomecânico em Portugal, um sector que foi responsável por 28,5% das exportações entre Janeiro e Setembro de 2010, quase um terço do total, de acordo com dados do Eurostat, o instituto de estatística da União Europeia.

“O sector das máquinas é importante não só pela exportação directa, mas também pela alavancagem que proporciona”, explica Fernando Sousa, gerente da CEI. A empresa explica que, neste caso, o processo funciona a dois níveis: a CEI exporta as máquinas de corte para outras empresas e estas vão usá-las no fabrico de bens que, por sua vez, também exportam.

Um sector inovador e exportador
Como se conseguem estes números? Apostando na inovação e na formação dos trabalhadores, explica Rafael Campos, vice-presidente executivo da AIMMAP – Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal.

Também Aníbal Campos, presidente da AIMMAP, destaca que Portugal tem “PME do melhor que existe no mundo. Ainda hoje, o aumento das exportações não surpreende. Há um tecido empresarial muito dinâmico”.

Rafael Campos defende que a inovação, a todos os níveis, é importante porque, sem ela, é difícil conseguir um cenário mais competitivo. “É necessário inovar para poder competir”, afirma.

Os mesmos dados do Eurostat mostram ainda que, entre Janeiro e Setembro do ano passado, as exportações do sector metalúrgico e metalomecânico ascenderam a quase 7,7 mil milhões de euros, tendo crescido 11,6% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Afirmação pela diferença
“Há um conjunto enorme de PME que tem tido estratégias bem pensadas, que lhes permitem afirmar-se pela diferenciação face às pares alemãs, por exemplo”, afirma Rafael Campos. A Silampos integra este leque e a variedade de produtos da empresa vai muito além da conhecida panela de pressão.

“Alargámos o conceito tradicional de louça, explorando a cozinha de outros países”, explica Aníbal Campos, presidente da empresa. Exemplo disto é o wok, característico da cozinha asiática, que é muito procurado em Portugal.

Já fora do nosso país, a tradicional cataplana portuguesa, em aço inoxidável, faz sucesso. Além de fabricar utensílios para a sua cozinha, a Silampos aposta também em linhas de louça industrial para o mercado da hotelaria e restauração, tendo já recebido vários prémios de design. O mais recente foi o Prémio Sena da Silva, atribuído pelo Centro Português de Design em 2010, ao Garden Grill, um grelhador de exterior criado pela Silampos com linhas urbanas e que pode ser usado tanto em jardins como em varandas, como explica Aníbal Campos.

A empresa aventurou-se na exportação nos anos 80, tendo como primeiro destino a Dinamarca. Desde então, aumentou a presença internacional e apostou no design, criando um gabinete próprio dedicado ao desenvolvimento e estética dos produtos. “Se não modernizarmos, acabamos por morrer”, afirma Aníbal Campos.

“A inovação é uma mentalidade”
A aposta das empresas na inovação está presente de forma vincada na ColepCCL. Francisco Rodrigues, director-geral da divisão de embalagens da empresa, defende que a inovação não existe apenas no trabalho de laboratório e passa por uma rede de conhecimentos desenvolvida em parceria com os clientes, fornecedores, associações do sector e universidades.

Exemplo desta produção multidisciplinar é o gel dentífrico Aquafresh iso-active, cuja embalagem em aerosol foi desenvolvida pela ColepCCL para acolher um produto da GlaxoSmithKline. Neste caso, a tradicional pasta de dentes foi substituída por uma embalagem de aerossol, semelhante àquela que é usada nos desodorizantes em spray.

“A inovação é uma forma de estar, é uma mentalidade”. Aos olhos de Francisco Rodrigues, esta visão é fundamental para que a empresa continue a merecer a credibilidade e preferência dos seus clientes, que incluem nomes como a Colgate, a Procter & Gamble e a Unilever.

“Queremos que, quando os nossos clientes pensam num produto, o associem de imediato à ColepCCL”, refere o gestor. Foi com esta ideia em vista que a ColepCCL criou, em 2006, um centro de inovação com o objectivo de diversificar a sua carteira de produtos.

A internacionalização, com a aquisição de uma unidade fabril espanhola em 1993, foi o ponto de partida para assumir o lugar de destaque no mercado europeu de enchimento de aerossóis para produtos de cosmética, higiene doméstica e parafarmácia, com aquele país a absorver hoje a maior parte dos produtos exportados. Actualmente, a ColepCCL tem unidades de produção em Portugal, Espanha, Alemanha, Polónia e Brasil.

Com a liderança ibérica no que respeita à produção de embalagens industriais, como as usadas em tintas e vernizes, a ColepCCL sentiu, nos dois últimos anos, o peso da quebra do mercado de construção espanhol. Em Portugal, este peso também se fez sentir, mas foi compensado pela exportação dos principais clientes nacionais da ColepCCL – Tintas Cin, Barbot e Dyrup – para Angola. A empresa encara 2011 com optimismo, apesar de saber que vão ser tempos difíceis, e pretende manter o esforço para optimizar as suas operações, apresentar propostas concorrenciais aos seus clientes e conseguir localizar-se em zonas competitivas, para evitar o “custo da periferia”, sentido em Portugal.

Fonte: Negócios

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2016-12-01T15:39:08+00:0002/02/2011|Categorias: Portugal|0 comentários
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