Os juros das obrigações a 10 anos dos países ibéricos e ainda da Irlanda voltaram, ontem, a atingir níveis próximos dos máximos de sempre.

Esta foi a resposta dos mercados financeiros que reagiram negativamente à insistência alemã para que os investidores venham a responsabilizar-se em caso de incumprimento de algum país. A chanceler Merkel afirmou, no parlamento alemão, que aquilo que está em causa é o primado da política.

Os juros da dívida pública dos países periféricos continuam a subir, incluindo as obrigações espanholas. A decisão da Irlanda, pressionada por (quase) todos para solicitar ajuda do fundo de reestruturação da UE e do FMI não resultou em acalmia dos mercados, mas na forte aceleração do custo das emissões de novas obrigações.

Na base desta falta de credibilidade que os investidores depositam sobre a capacidade dos países periféricos em resolverem os seus problemas de défice e em amortizaram o elevado endividamento está a forte pressão que os países com excedentes comerciais estão a fazer sobre os deficitários. O cenário foi agravado pela imposição da Alemanha aos restantes membros do UE para que aceitem uma proposta no sentido de responsabilizar os investidores perante o eventual incumprimento de algum emitente. Neste ambiente, as OT a 10 anos nacionais superaram os 7%, tendo recuado ligeiramente no fecho, enquanto as obrigações da mesma maturidade espanholas chegaram aos 4,88% e as irlandesas superaram os 8,6%.

Entretanto, a chanceler Ângela Merkel não esconde o seu objectivo de voltar a estabelecer o primado da política sobre os mercados financeiros. Aliás, 2011 será um ano de mais Estado, menos risco e menos mercados. Ontem, no parlamento do seu país, Merkel voltou a defender um mecanismo que responsabilize os investidores privados por parte do eventual incumprimento da dívida.

Acontece que estas declarações aconteceram num momento em que a Alemanha divulgava o seu índice de confiança. O Ífo, produzido por um instituto com o mesmo nome e sedeado em Munique, e onde os empresários e gestores alemães reflectem a sua percepção em termos de nível de confiança na economia, revelou-se o mais elevado desde que há registos, ou seja, desde há 20 anos.

Por outro lado, acontece que as declarações no parlamento aconteceram depois de ter dito que existem sérias possibilidades de novos “bailouts” na Zona Euro, o que deixa antecipar que, depois da Grécia e Irlanda, seguir-se-ão Portugal e Espanha.

Aliás. Sobre os países ibéricos já se afirma, entre analistas, que o eventual resgate de Espanha poderá chegar aos 330 mil milhões de euros e esgotará os cofres do fundo específico criado pela UE e pelo FMI, enquanto Portugal necessitará, segundo alguns analistas, de 51 mil milhões de euros. No quadro lateral, da responsabilidade da IG Markets, são evidenciadas as necessidades dos vários países e a concentração de maturidades. Portugal tem fortes necessidades nos prazos mais curtos e nos mais longos, o que significa que a turbulência sobre a dívida portuguesa poderá acontecer já em Janeiro.

Mas o que quer a Alemanha com o novo “Mecanismos permanente de resolução de crises”? O objectivo é servir as necessidades de financiamento para eventuais riscos de incumprimento do serviço da dívida a partir de 2013, substituindo o actual fundo de resgate com um valor da ordem dos 750 mil milhões de euros.

Entre as alterações está a possibilidade de os investidores serem “convidados” a renegociar condições de refinanciamento e extensões de prazos ou a reforma da dívida num modelo mais abrangente. Ora isto faz com que as emissões de prazos médios e longos possam sofrer o impacto, já que a percepção de risco para as economias ibéricas é maior e o prémio de investimento sobe exponencialmente. Merkel está a pensar na Grécia, já que juros no mercado secundário estão acima dos 11%, têm uma dívida da ordem dos 150% e uma economia em forte contracção. Recorde-se que o contrato com a Grécia implicou juros de 5%, menos de metade do custo no mercado.

Entretanto, um documento alegadamente do ministério das Finanças alemão, citado pela Bloomberg, veio complicar a situação, pois a data de 2013 é antecipada para Janeiro próximo. O objectivo é que dentro de pouco mais de um mês os investidores comecem a assumir as responsabilidades por eventuais “défaults”. O mesmo documento, que ainda não foi alvo de comentários, refere que, perante o incumprimento, os investidores terão de estender o período de pagamento, mas se, mesmo assim, não for suficiente, estes terão de aceitar um prazo ainda mais extenso, cortes nas taxas de juro e uma redução do valor nominal, ou seja, uma operação “harmónio”, em que a dívida seria reduzida ou mesmo anulada, sendo assumida pelo investidor. O risco cresce exponencialmente.

Opositores

A pressão de Merkel recebeu viva contestação de vários quadrantes, destacando-se a poderosa associação dos bancos da Alemanha. A BDB alertou para o efeito negativo da proposta. Afirmam, citados pela Lusa, que os 750 mil milhões de euros disponibilizados pela UE para os países em dificuldades na Zona Euro vão expirar em meados de 2013, deixando um vazio até à aprovação do mecanismo proposto pela Alemanha, segundo o qual haverá um mecanismo permanente de resolução de crises, de acordo com a associação.

A pressão de Merkel recebeu viva contestação de vários quadrantes, destacando-se a poderosa associação dos bancos da Alemanha. A BDB alertou para o efeito negativo da proposta. Afirmam, citados pela Lusa, que os 750 mil milhões de euros disponibilizados pela UE para os países em dificuldades na Zona Euro vão expirar em meados de 2013, deixando um vazio até à aprovação do mecanismo proposto pela Alemanha, segundo o qual haverá um mecanismo permanente de resolução de crises, de acordo com a associação.

“Os planos para esse período de transição têm de ser feitos agora”, afirma a associação no relatório mensal divulgado ontem. “Sem respostas convincentes sobre o funcionamento desse plano de transição, o mecanismo de resolução de crises, pode, em último caso, trazer mais incerteza, em vez da desejada confiança”, acrescenta o relatório.

Os comentários do BDB sublinham os riscos associados ao plano avançado por Merkel, que é apoiado pela Holanda e criticado pelos países em maiores dificuldades financeiras, como é o caso de Espanha, onde o primeiro-ministro, José Luís Zapatero, já afirmou publicamente a sua oposição ao projecto.

O presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, já admitiu que a discussão deste plano arrisca-se a aumentar a pressão sobre os países periféricos da Zona Euro, como a Grécia ou a Irlanda.

“Um procedimento transparente para lidar com crises da dívida soberana em países da Zona Euro que inclua os credores privados é sensato, em princípio”, afirma o BDB, que explica que, “afinal de contas, uma das causas da presente crise foi que o risco de políticas orçamentais e macroeconómicas erradas não era adequadamente reflectido nos “spreads” dos investidores privados”.

O efeito irlandês

As dificuldades da Irlanda e do Reino Unido estão a ter sérios impactos no tecido industrial português, sobretudo ao nível do turismo residencial e do imobiliário em geral.

As dificuldades da Irlanda e do Reino Unido estão a ter sérios impactos no tecido industrial português, sobretudo ao nível do turismo residencial e do imobiliário em geral.

O turismo residencial foi aquele que mais se afundou”, afirmou António Carneiro, presidente do Pólo de Turismo do Oeste, citado pela Lusa, relacionando a quebra na procura dos resortes nacionais com a crise na Irlanda, cujo mercado “era responsável por cerca de 60 a 90% das compras de habitações”.

A crise “não parou, mas fez abrandar muito” os resortes turísticos em Portugal, que, segundo o mesmo responsável, se deparam com “a desistência de muitos compradores que já tinham feito contrato”, mas desistem antes da realização da escritura. “Nem sequer vamos fazer promoção do golfe na Irlanda e em Inglaterra” adiantou à Lusa António Carneiro, assumindo a opção por marcados alternativos como Suíça ou Áustria, pelo menos “até que a Europa comece a recuperar desta crise”.

Fonte: Oje

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2016-12-01T15:39:11+00:00 25/11/2010|Categorias: Internacional|0 comentários
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