Governo liderado pelo Syriza força a barra, em confronto flagrante com o programa da troika. Tal como prometeu Alexis Tsipras. Alemanha diz-se “tranquila” mas tensão está a aumentar. Quem vai ceder?

Uma cena de filme de ação de Hollywood em plena zona euro: dois automóveis seguem, a alta velocidade, na direção um do outro, a caminho de um choque frontal. Alexis Tsipras não perdeu um minuto, após a tomada de posse como primeiro-ministro da Grécia, para anunciar medidas ao arrepio do programa da troika. Mas o tempo e, claro, o dinheiro escasseiam, com o país novamente fora dos mercados e os bancos a verem fugir depósitos, cada vez mais ligados à máquina da liquidez de emergência do BCE. Do outro lado, Berlim esforça-se por passar uma mensagem de serenidade, oficialmente pedindo-se apenas que o Governo grego apresente “rapidamente” a sua estratégia. A Alemanha está serena mas também “tranquila”, o que neste caso não são exatamente sinónimos, já que a tranquilidade referida pelo ministro das Finanças alemão soa a uma ameaça: a zona euro enfrentaria uma saída da Grécia sem perturbações de maior. Qual dos lados irá ceder? Qual dos automóveis irá guinar primeiro?

Em Atenas, o relógio está a contar e os mercados estão cada vez mais fechados para a Grécia. Sem novo financiamento, a Grécia conseguirá, provavelmente, aguentar mais alguns meses, até meados deste ano. Mas a 20 de julho a Grécia terá de reembolsar 3.500 milhões de euros em dívida que está nas mãos do BCE. No mês seguinte, em agosto, mais 3.200 milhões, também ao banco central, que comprou dívida grega ao abrigo do extinto programa Securities Market Programme (SMP). Estes valores dizem apenas respeito ao valor nominal da dívida a reembolsar – juntam-se 320 milhões de euros em juros. Até lá, a Grécia terá, também, pagamentos ao Fundo Monetário Internacional (FMI) – 8.600 milhões este ano – e um reembolso parcial de obrigações comuns que pertencem a investidores que não aceitaram participar na reestruturação de dívida de março de 2012 ou, em rigor, no envolvimento do setor privado através da troca voluntária de dívida.

“Só com muita sorte” a Grécia aguentará até ao verão, diz Holger Schmieding, economista do Berenberg Bank, em nota enviada ao Observador. Atenas “quase certamente não irá conseguir pagar” os reembolsos ao BCE de julho e agosto sem apoio externo, diz o especialista, notando que só via “estratégias de alto risco” como atrasar pagamentos a fornecedores ou recorrer a reservas no cofre da segurança social se conseguirá aguentar a pressão dos reembolsos ao BCE. Mas estas contas são tudo menos aritméticas, já que uma situação de incerteza extrema irá penalizar a delicada recuperação económica e agravar a fuga de depósitos na banca, que já está por estes dias a assistir a “um massacre”, disse um banqueiro ao Financial Times na terça-feira. “A situação pode transformar-se num círculo vicioso muito rapidamente“, diz Holger Schmieding.

A 20 de julho a Grécia terá de reembolsar 3.500 milhões de euros em dívida que está nas mãos do BCE. No mês seguinte, em agosto, mais 3.200 milhões. Estes valores dizem apenas respeito ao valor nominal da dívida a reembolsar – juntam-se 320 milhões de euros em juros.

Os primeiros dias do governo de Alexis Tsipras estão a ser marcados por uma razia nos mercados, apesar de a vitória do Syriza já ser esperada. A bolsa de Atenas chegou a afundar-se 10% e a negociar nos valores mais baixos desde setembro de 2012. Não são mínimos quaisquer: esse foi o mês em que o Banco Central Europeu (BCE) anunciou o programa de Transações Monetárias Definitivas, mais conhecido pela sigla anglo-saxónica OMT. Este programa, apesar de nunca ter sido utilizado, é visto como o momento decisivo que marcou a inversão da crise financeira que levava, no verão de 2012, a zona euro para o abismo. Este programa foi o resultado prático da promessa de Mario Draghi, semanas antes, em julho de 2012, de que o BCE “faria tudo, dentro do mandato, para preservar a moeda única”.

Os bancos gregos estão em forte queda desde as eleições, com receios de que o governo faça uma nacionalização de facto do setor. Um exemplo: ações do Piraeus Bank caem 49,7% em um mês.

Os bancos gregos estão em forte queda desde as eleições, com receios de que o governo faça uma nacionalização de facto do setor. Um exemplo: ações do Piraeus Bank caem 49,7% em um mês.

Quarta-feira foi mais um dia de derrocada nos títulos de dívida pública, com os juros a 10 anos acima de 10% e a três anos perto de 17%. Em simultâneo, as ações dos bancos perdem entre 35% e 46% do seu valor desde a sexta-feira antes das eleições, com relatos de um “massacre” na fuga de depósitos. Como nota a Bloomberg, já se esfumou da capitalização de mercado dos bancos gregos mais do que o valor injetado ao longo do último ano nos vários aumentos de capital que foram feitos no setor. Teme-se uma nacionalização de facto dos bancos, já que o Estado detém posições acionistas relevantes nas principais instituições financeiras. “Há um receio de que o novo governo possa exigir a recuperação dos direitos de voto

[correspondentes à participação no capital] e que venha a controlar os bancos, o que não é bem uma nacionalização mas é quase”, disse à Bloomberg Vassilis Patikis, analista de mercados do Piraeus Bank.

Mercados de financiamento fechados, reembolsos de dívida elevados ao virar da esquina, um governo que, ao fim de dois dias, já lançou medidas que terão arrepiado os cabelos a Angela Merkel e ao seu ministro das Finanças, Wolfgang Schuble. Um resumo: suspender todos os processos de privatizações das companhias elétricas em curso, subir o salário mínimo nacional, recontratar os funcionários públicos que foram despedidos nos anos da troika. Dois automóveis, a alta velocidade, a caminho de um choque frontal. Os economistas voltam a temer cenários de colapso, que ao longo dos últimos dois anos pareciam definitivamente fora de questão.

Um destes economistas é Holger Schmieding, do Berenberg Bank, que passou a atribuir uma probabilidade de 35% a uma saída da Grécia da zona euro. A mensagem principal do governo liderado pelo Syriza é que “a Grécia pode gastar dinheiro que não tem, forçar a Europa a perdoar parte substancial da dívida grega e, logo a seguir, oferecer à Grécia a quantidade generosa de dinheiro fresco que o país precisa para se manter na zona euro”. E isto para quê? “Para que a Grécia volte a tornar a economia menos flexível e menos competitiva”, diz Holger Schmieding. “Estas ideias parecem alheias à realidade”, conclui o economista, que nota que uma Grécia fora da zona euro seria “uma Venezuela, sem petróleo”.

Esta visão espelha a tensão crescente em alguns setores da sociedade alemã, impacientes perante este clima de incerteza e confronto. Think tanks influentes como o ZEW, o IFO e o IW não se inibem nas palavras: “O apoio financeiro à Grécia tem de ser cortado se o país não cumprir com os seus compromissos de reformas. Se a Grécia endurecer a sua posição, a Europa também deverá endurecer a sua“, defendeu o IW, sigla do instituto German Economic Research, citado pelo The Telegraph. Dias antes, uma posição semelhante por parte do influente ZEW: “A Europa deve mostrar claramente que não é suscetível a chantagem“. Também não caiu bem junto de alguns setores da sociedade alemã a escolha dos Gregos Independentes para parceiro de coligação, um partido bem conhecido por algumas posições anti-germânicas.

“O apoio financeiro à Grécia tem de ser cortado se o país não cumprir com os seus compromissos de reformas. Se a Grécia endurecer a sua posição, a Europa também deverá endurecer a sua” – German Economic Research (IW), um influente think tank alemão.

Depois de Angela Merkel ter felicitado Alexis Tsipras pela vitória nas eleições, Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças, volta a não ter medo de assumir o papel de polícia mau. Sobre um eventual perdão da dívida à Grécia, disse terça-feira que “qualquer pessoa que fale sobre um corte do valor da dívida não faz ideia do que está a falar”. E voltou a insurgir-se contra as críticas frequentemente feitas à Alemanha: “Temos dado uma ajuda excecional à Grécia, tenho de dizer de forma enfática que os contribuintes alemães têm dado muito [à Grécia]”.

Mas Schäuble não ficou por aí. Em Bruxelas, por ocasião da reunião dos ministros das Finanças do Ecofin, deixou uma mensagem clara, quando questionado sobre o potencial de um contágio da instabilidade na Grécia aos outros países: “Em contraste com 2010, os mercados financeiros têm fé na zona euro. Não enfrentamos qualquer risco de contágio, portanto ninguém deve achar que nos coloca sob pressão com facilidade. Estamos tranquilos”, atirou o ministro das Finanças alemão.

"Ninguém deve achar que nos coloca sob pressão com facilidade. Estamos tranquilos", atirou o ministro das Finanças alemão.

“Ninguém deve achar que nos coloca sob pressão com facilidade. Estamos tranquilos”, atirou o ministro das Finanças alemão.

Se, nos dois primeiros dias da semana, as tensões nos mercados se circunscreveram a Atenas, ao terceiro dia após as eleições sentiu-se a pressão noutros mercados, incluindo em Portugal. O índice PSI 20 fechou a cair 1,5%, uma variação negativa semelhante à da véspera, e os juros da dívida nacional subiram em todos os prazos: a taxa a 10 anos terminou o dia com um agravamento de 14 pontos base para 2,58%. Há razões para recear um contágio que ajudaria a suportar as reivindicações de Alexis Tsipras e do governo grego?

“O BCE teve um timing perfeito com o anúncio dos estímulos“, diz ao Observador Christian Schulz, economista e colega de Holger Schmieding no Berenberg Bank. “Com compras de dívida pública em larga escala a começarem dentro de cinco semanas, o risco de um contágio grave nos mercados de dívida é improvável, já que poucos detentores de dívida de Portugal ou Espanha irão entrar em pânico sabendo que o BCE vai começar a comprar em breve”, diz o especialista. Acrescenta, contudo, que “o único risco de contágio que existe é de um contágio político, que outros países sigam o caminho da Grécia”, mas “para já, não existe qualquer sinal de que isso acontecerá”.

“O BCE teve um timing perfeito com o anúncio dos estímulos. poucos detentores de dívida de Portugal ou Espanha irão entrar em pânico sabendo que o BCE vai começar a comprar em breve” – Christian Schulz, economista do Berenberg Bank

Cenas dos próximos episódios: a próxima reunião do Eurogrupo acontece a 16 de fevereiro, o primeiro frente-a-frente entre Wolfgang Schäuble e o novo ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis. Depois, a 19 de março, dá-se o primeiro Conselho Europeu em que participará Alexis Tsipras. Será a primeira vez que Tsipras cumprimentará Angela Merkel, se não o tiver já feito na reunião informal dos líderes europeus marcada para 13 de fevereiro. Até lá, o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, visita Atenas esta semana e também o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, irá à capital grega, na sexta-feira.

Com o relógio a contar o tempo até se esgotarem os recursos financeiros da Grécia, a evolução dos mercados nos próximos dias poderá ser decisiva para definir quem irá ceder, qual dos dois automóveis irá guinar em primeiro: a Grécia ou a Alemanha, que tem fama de locomotiva.

Fonte: Observador

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2016-12-01T15:37:58+00:00 29/01/2015|Categorias: Internacional|Tags: , , , , |0 comentários
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