Vários factores em jogo mostram que Madrid apresenta maiores riscos do que Lisboa.

O economista Michael McDonough, que escreve para a “Bloomberg Brief: Economics”, é peremptório: tudo indica que Espanha seja, actualmente, mais arriscada do que Portugal.

Segundo os seus cálculos, os problemas de Espanha poderão ser uma praga no futuro próximo e pesar fortemente nos mercados internacionais, “dado que o seu PIB representa 12% da economia da Zona Euro, mais do que o PIB acumulado da Irlanda, Grécia e Portugal”.

“Espanha está a tornar-se cada vez mais no ponto central dos receios em torno da estabilidade das economias mais debilitadas da Europa, talvez até mais do que Portugal”, salienta McDonough.

CDS para dívida espanhola dispararam

Os seguros de protecção contra um possível incumprimento soberano (credit default swaps – CDS) de Espanha dispararam 17% nos cinco dias até 24 de Novembro, ao passo que a mesma protecção para a dívida pública portuguesa registou um acréscimo de apenas 6%, sublinha o economista, recorrendo a um modelo de vários factores que estão neste momento em jogo na Zona Euro e que podem explicar o porquê.

O referido modelo analisa até que ponto é que cada Estado-membro se desviou da trajectória orçamental definida quando entrou em vigor a Zona Euro.

“No papel, está estabelecido que os países do euro não podem ter défices orçamentais acima de 3% do PIB, ou rácios dívida-PIB superiores a 60%. Na prática, esses países quebraram esses limites durante 57% do tempo de vida da união económica e monetária (11 anos). Alguns nomes familiares – Grécia e Itália – estão entre os mais incumpridores”, explica Michael McDonough na sua coluna na Bloomberg.

Risco excessivo do sector bancário

O aumento dos pedidos de empréstimo para níveis superiores à média da Zona Euro poderá significar um risco excessivo no sector bancário de um país, recorda o mesmo responsável. “A título de exemplo, as concessões de empréstimos aumentaram quase 100% na Irlanda entre 2003 e 2009. Na Bélgica, subiram 9,2% durante o mesmo período, ao passo que na Alemanha desceram 1,2%. (…) Em Espanha dispararam 113,4%”.

Um outro factor prende-se com os custos salariais unitários, que são os custos médios por unidade de produção. Trata-se, salienta McDonough, de um barómetro de potenciais problemas estruturais numa economia. Se houver aumentos substanciais dos salários sem um forte aumento da produtividade, isso leva a um aumento dos custos salariais unitários, o que significa que a competitividade do país pode estar ameaçada.

Neste modelo em análise, foi dado um peso de 35% aos critérios orçamental e da dívida e um peso de 15% à variação nos pedidos de crédito entre 2003 e 2009 e também de 15% ao aumento do custo salarial unitário durante o mesmo período. A partir destes cálculos, foi possível chegar aos rácios de risco de cada país.

Depois da Grécia e Irlanda, Espanha é o país de maior risco

Os resultados apresentados por McDonough colocam a Grécia no topo do risco, com uma classificação de 2,41 pontos, seguida da Irlanda com 1,78 pontos. Espanha segue-se logo na lista, com 1,34 pontos, bem à frente de Portugal, que tem uma pontuação de 0,97.

O economista realça que Espanha está numa posição cimeira na lista de risco, apesar do seu encargo da dívida ser relativamente baixo (53,2% em 2009).

O facto de ocupar o terceiro lugar no “ranking” de risco da Zona Euro deve-se em grande medida ao seu elevado défice orçamental, que atingiu 11,1% do PIB em 2009, bem como ao crescimento dos empréstimos e do custo salarial unitário para níveis bastante acima da média da Zona Euro.

Empréstimos subiram 113,4% entre 2003 e 2009 em Espanha

O volume de crédito em Espanha, que aumentou em 113,4% entre 2003 e 2009 (ainda mais do que na Irlanda), fez com que o endividamento das famílias representasse 210% do PIB, o que poderá fragilizar os balanços do sector bancário, adverte McDonough.

A economia espanhola está também, sublinha o economista, em pleno processo de ajustamento depois do aumento de 20% do seu custo salarial unitário nos últimos sete anos. “Estes custos subiram devido à conjugação de um crescimento modesto da produtividade e normas laborais inflexíveis por parte do governo”, refere o mesmo responsável. Por comparação, na Alemanha estes custos registaram um acréscimo de 4,4% no mesmo período.

“Numa altura em que Espanha tenta recuperar a competitividade, a sua taxa de desemprego disparou para 20,6%, contra apenas 8% em meados de 2007. Isto exerce uma pressão sobre o sistema bancário espanhol, uma vez que poderá deparar-se com um crescente número de tomadores de empréstimos que deixam de conseguir pagar as suas dívidas. E isto poderá levar a um ciclo de retroalimentação semelhante ao que foi vivenciado pelos Estados Unidos na sequência da crise do ‘subprime’

[crédito de alto risco]”, diz ainda o economista.

Elevado desemprego pode aumentar malparado

A correcção no mercado de trabalho espanhol, depois do excessivo crescimento salarial, fez com que a taxa de desemprego do país disparasse para mais de 20%, o que tem efeitos penalizadores, já que estes níveis exercem uma pressão adicional sobre as finanças públicas, conduzindo a um maior aumento da dívida e deixando mais pessoas incapazes de pagar as suas contas.

Isto, por sua vez, provoca uma tensão sobre o sector financeiro em Espanha, à medida que os incumprimentos no pagamento das prestações do crédito à habitação e de outros tipos de empréstimos começam a avolumar-se, explica o economista nesta análise.

Espanha tem sido, de par com Portugal, apontada como um dos próximos países a poder ter de recorrer ao fundo de estabilização financeira da UE/FMI.

Apesar de ambos os países negarem estar numa situação que os faça ter de pedir ajuda financeira, os mercados parecem continuar a crer que isso vai acontecer, o que tem inflacionado fortemente os juros da dívida pública e os CDS.

Fonte: Negócios

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2016-12-01T15:39:11+00:0026/11/2010|Categorias: Internacional|0 comentários
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