Com mais de 170 anos de história, a maior associação mutualista do país terá em 2015 o ano da mudança. Apesar de negar semelhanças com o BES, o Montepio teve de separar os órgãos de administração entre o banco e a Associação. A partir de julho passará a ter um novo presidente.

Os resultados da auditoria feita pelo Banco de Portugal, divulgados em maio passado, não revelaram “consequências patrimoniais” decorrentes da gestão entre 2009 e 2012, apenas “necessidades de melhorias” das quais 90% já foram corrigidas. No entanto, o caso recente do Grupo Espírito Santo (GES) acionou os sinais de alarme e as atenções e os holofotes mediáticos depressa se centraram no Montepio. As semelhanças apontadas com o GES prendem–se com o facto de o Grupo Montepio ter uma Associação Mutualista, holding que encabeça o Montepio Geral, e também um banco: a Caixa Económica (CEMG). Ambas as entidades partilhavam a mesma equipa, presidida e centralizada em António Tomás Correia. Mas tudo vai mudar já em julho.

“Não há qualquer semelhança entre o Grupo Espírito Santo/BES e o Grupo Montepio”, garantiu Tomás Correia ao Dinheiro Vivo, salientando até que “entre todas as entidades e grupos que operam no sector financeiro, o Montepio é dos que mais se diferenciam”.

A alteração de estatutos aprovada na assembleia geral realizada no final do mês passado vai permitir a separação da gestão da Associação Mutualista, que manterá Tomás Correia como presidente até dezembro – altura em que termina o seu mandato e que deverá recandidatar-se a um novo – face à presidência da instituição financeira satélite, a Caixa Económica, que marcará o regresso de José Félix Morgado, até agora CEO da Inapa, ao sector financeiro 25 anos depois (ver texto ao lado).

“A separação tem que ver com o fim das inerências e com o desaparecimento da coincidência das mesmas pessoas em órgãos da mutualidade ou da CEMG, no fundo a especialização da gestão, não implica mudança de natureza jurídica”, explica Tomás Correia ao Dinheiro Vivo.

E é aqui que entra José Félix Morgado. O gestor renunciou ao cargo na empresa de distribuição de papel já no início deste mês ao aceitar o convite feito por Tomás Correia para assumir a Caixa Económica, o que deverá acontecer no próximo mês de julho, depois de já ter recebido luz verde por parte do Banco de Portugal. De fora da corrida ficou o antigo ministro das Finanças Teixeira dos Santos que, “após uma prolongada reflexão”, decidiu recusar o convite para assumir a liderança do banco mutualista.

Entre os principais desafios da nova gestão está o regresso ao crescimento de resultados e colocar um ponto final na opinião pública quanto a possíveis semelhanças entre o Montepio e o GES. Além da queda de 73% dos lucros nos primeiros três meses do ano, o Montepio fechou 2014 com prejuízos de 187 milhões de euros, depois de no ano anterior ter registado números igualmente negativos de 299 milhões de euros.

O Montepio tem definido um aumento de capital para reforçar a sua solidez, que será assegurado pela Associação Mutualista. Numa primeira fase, a associação vai subscrever na totalidade a nova emissão de unidades de participação da Caixa Económica Montepio Geral no valor de 200 milhões de euros. Numa segunda fase, a estratégia passa por procurar investidores institucionais, principalmente estrangeiros, que subscrevam as unidades. A implementação deste reforço de capital foi, aliás, o motivo pelo qual a Moody”s melhorou ontem os ratings de depósitos e dívida de longo prazo da Caixa Económica Montepio Geral, para “B1”, e reviu igualmente em alta o outlook da instituição para “estável”. Além deste aumento está a ser preparada uma emissão de dívida subordinada de 300 milhões, para reforçar os rácios.

Questionado se depois da separação já não será possível a Associação subscrever aumentos de capital da Caixa Económica, Tomás Correia adiantou que “enquanto não for modificada a natureza jurídica da Caixa Económica, a Associação pode continuar a contribuir para o capital institucional da CEMG”. O responsável explicou ainda que a Caixa Económica, por não ter acionistas, “não pode aumentar o seu capital através da emissão de ações, como fazem os bancos, embora possa recorrer ao mercado através da emissão de unidades de participação”, além de que pode ainda reforçar o capital “por retenção de lucros ou por entregas” da Associação.

Quanto à possível entrada de um novo acionista, Tomás Correia revela que “só podem existir acionistas se a CEMG se transformar em sociedade comercial anónima”, o que, a acontecer, “é natural que possa ser reconhecida como banco”.

Fonte: Dinheiro Vivo

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2015-06-14T21:07:57+00:00 14/06/2015|Categorias: Portugal|Tags: , , |0 comentários
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