Um “não” no referendo de hoje pode ser o primeiro passo para a saída da Grécia da Zona Euro e para um eventual regresso do dracma. Uma transformação complicada, que pode demorar muito tempo a concluir.

Os casos mais recentes na Europa – a reunificação alemã e a separação da Checoslováquia – mostram como a transição é repleta de obstáculos, beneficiando de muita preparação e apoio popular alargado. Dois ingredientes que, como sublinha a Bloomberg, a Grécia não possui.

Embora o Governo helénico já tenha assegurado que pretende continuar na Zona Euro independentemente do resultado do referendo de hoje e apesar da grande maioria da população ainda defender a permanência na moeda única, a Grécia poderá ser empurrada para fora da união monetária, caso o BCE interrompa definitivamente o apoio aos bancos gregos. Nesse cenário em que não haja liquidez, poderá ser necessário colocar em circulação uma divisa alternativa para manter a economia a funcionar. Um novo dracma.

A Bloomberg cita Richard Portes, professor de economia da London Business School, que lembra que o “precedente histórico sugere que seria um enorme desafio” para Atenas. “A situação na Grécia é talvez ainda pior porque não é claro que eles tenham capacidade administrativa para avançar para uma nova moeda”.

Em primeiro lugar será necessário encontrar um local para imprimir novas notas. Teoricamente, Atenas poderá usar a gráfica onde são hoje impressos euros (antigamente dracmas), situada em Holargos, um subúrbio de Atenas. Mas será assim tão simples?

Ralf Wintergerst, presidente da Giesecke & Devrient GmbH, uma empresa alemã responsável desde 1920 pela impressão de notas, refere que introduzir uma nova moeda em circulação demora, pelo menos, seis meses e, por vezes, até dois anos. Lembra que os artistas têm de desenhar as notas, os especialistas em segurança têm de acrescentar medidas anti-falsificação e é preciso definir as quantidades que podem ser impressas.

“Uma moeda é um cartão-de-visita nacional, por isso quer que ele esteja bem feito”, refere Wintergerst, citado pela Bloomberg.

O problema pode estar na distribuição, como nota Boris Raguz, responsável pelo Tesouro do Banco Nacional da Croácia, e que, em 1993, supervisionou a introdução da moeda do País – a kuna – após a separação da Jugoslávia.

O mais desafiante poderá ser a transição, uma vez que duas moedas terão de conviver no mesmo país. Por exemplo, os pagamentos e transferências poderão passar a ser feitos em dracmas, mas as lojas deverão continuar a aceitar as duas moedas.

“Quando vai ocorrer a conversão? A que ritmo?”, pergunta-se Antonio Fatas, professor de economia da Insead. “Essa é a grande questão.” A Bloomberg nota que, inicialmente, as duas moedas poderiam ter o mesmo valor, mantendo-as artificialmente “alinhadas” durante algum tempo.

Na Grécia, o facto de este processo ter de ser ainda mais rápido, com pouco tempo de planeamento, irá dificultar ainda mais as coisas. Além disso, o facto de o euro continuar a existir no resto da Europa, poderá tornar o novo dracma pouco “apelativo” para empresas, famílias e investidores. Mal a nova moeda possa flutuar, antecipar-se-ia uma quebra muito grande do seu valor.

“Assim que as pessoas tivessem dracmas nos bolsos, fariam tudo o que fosse possível para se livrarem delas”, antecipa Jacob Kirkegaard, do Instituto Peterson, em Washington.

Ludek Niedermayer, que trabalhava no departamento de gestão de risco do banco central da República Checa em 1993 quando o seu país se separou da Eslováquia, também está pessimista. “É um péssimo começo introduzir uma moeda que ninguém quer”, sublinha. “Eu aconselharia os gregos a deixarem de pensar em sair do euro. Não teria um final feliz para eles.”

Fonte: Negócios

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2015-07-05T16:26:55+00:0005/07/2015|Categorias: Estatística|Tags: , , , |0 comentários
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