Um dia destes questionaram-me se existe desconhecimento geral sobre a temática da insolvência. A resposta não deixou de ser afirmativa pois trata-se de matéria desconhecida do público em geral e mesmo por profissionais forenses.

Cada dia que passa relatam-me as histórias mais absurdas: desde a mãe que não recorreu ao processo porque alegadamente ficava sem os filhos, o devedor que foi aconselhado a não se apresentar à insolvência com plano de recuperação, pois nunca mais podia trabalhar na vida e, em geral, a errada informação que o insolvente fica sem os rendimentos provenientes do seu trabalho.

O desconhecimento é uma coisa terrível.

É consensual que:

– No processo de insolvência, empresas e particulares, devem sempre ultimar todos os esforços para pagar aos credores. Muito ou pouco, impõe-se o dever moral de apresentar um plano de pagamentos. Nos casos em que não se consegue disponibilizar verba para o efeito, e só nessa circunstancia, deve então avançar-se para tentar obter o perdão das dívidas através da exoneração do passivo restante e sempre esclarecendo os credores e demais intervenientes desse facto.

– Quando os credores disponibilizaram o dinheiro, não apontaram uma arma à cabeça do devedor para o obrigar a aceitar (Junta-se a fome e a vontade de comer). Temos que criar uma cultura de responsabilidade. Pessoas singulares e empresas podem colapsar… mas devem faze-lo de forma consciente e ver no processo de insolvência uma possibilidade de mudar as coisas. A postura no processo e vertida nos articulados e actos processuais é fundamental.

– As empresas financeiras começam a assumir a sua mea culpa e a ter sensibilidade que devem ajudar as pessoas. É normal que, numa primeira fase, insistam pela cobrança do crédito. Numa segunda fase, e já no processo judicial, tendem a ajudar as pessoas e a permitir que recuperem a sua vida. Pelo menos é a ideia que tenho e com base nos processos que intervenho pessoalmente.

– Deixar para ontem uma intervenção na empresa, seja para recuperar ou liquidar, pode colocar em causa a sua sobrevivência e o comportamento dos administradores. Sem falar dos actos prejudiciais aos credores, trabalhadores e todos os demais.

– Nos casos de incumprimento e em termos de contratos de trabalho e contratos em geral é melhor resolver as situações via insolvência do que arrastar as situações na via judicial. A insolvência não suspende o contrato de trabalho automaticamente.

– Com a insolvência, cessam as penhoras, as execuções e figuras afins. De outra forma, não se conseguia recuperar nem garantir os direitos dos credores. A suspensão das penhoras e outras formas de agressão patrimonial cessam para evitar que o património se desmembre.

– Nunca entregar os bens objecto dos contratos (leasing e outros) às empresas – pois são vendidos a baixo preço resultando um diminuto abatimento da dívida. Mais tarde, o remanescente terá que ser pago. As viaturas só podem ser levantadas com um providência cautelar que envolve policia. Nunca entregar os bens às pessoas que vão às empresas e habitações alegando que é melhor entregar o bem. O objectivo é tentar vender ou permitir a venda pelo administrador de insolvência no processo.

– Os gerentes e administradores, arrastam para o seio familiar e pessoal as responsabilidades da empresa. A responsabilidade tem que ser aferida antes de se fecharem as portas das empresas.

– O processo de insolvência das pessoas singulares pode visar a recuperação. A insolvência não “retira os filho menores ao insolvente”, “não o impossibilita de trabalhar” nem o priva do direito a heranças etc… tudo coisas sem pés nem cabeça e ditas por quem não sabe do que fala.

– Com o processo de insolvência iniciado o devedor não deve fazer pagamentos aos credores. Deve apenas fazê-lo no âmbito e dentro do processo de insolvência.

– A insolvência permite às empresas e às pessoas singulares fazer um plano de pagamentos que permita viver com dignidade e pagar aos credores. O objectivo é sempre conciliar as duas coisas. Mas não se pode exigir às empresas ou às pessoas singulares que paguem aquilo que não têm… cada vez mais são aprovados planos de pagamentos via judicial.

– O processo de insolvência não é o fim do mundo nem o ostracismo do devedor. Para 100% dos clientes e dos processos que acompanho, é o principio de algo melhor e que permite um passo de gigante para a qualidade de vida, sossego e tranquilidade pessoal e familiar.

Luis M. Martins (Advogado)

Fonte: Insolvência

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2016-12-01T15:39:16+00:00 11/09/2010|Categorias: Geral|0 comentários
error: Segurança, acima de tudo! ;)