Os sapatos portugueses são um sucesso pelo mundo fora – o que a maior parte das pessoas ignora. Diferenciam-se pela originalidade, pela extravagância e, sobretudo, pela qualidade. A aposta no design, nos novos materiais e nas novas tecnologias é grande. Apontamentos de um sector em franco crescimento.

Artigos de moda ou objectos de arte, pouco importa. Não há quem resista a sapatos bonitos e estes são diariamente idolatrados e desejados por milhares de mulheres que sabem que os sapatos certos podes fazer toda a diferença na roupa que escolheram para aquela ocasião especial. E que não resistem a vê-los, também, como objectos de culto. E o que é certo é que essa paixão feminina, e masculina, pelo calçado permitiu à indústria portuguesa ultrapassar de forma um pouco mais sorridente do que os restantes sectores da economia os tempos turbulentos que se vivem em termos económicos e financeiros.
A indústria do calçado em Portugal centra-se em dois grandes pólos – São João da Madeira/Santa Maria da Feira e Felgueiras/Guimarães – nos quais se albergam 1400 empresas e que dão emprego a 37 mil pessoas. Um sector que exporta mais de 95 por cento do que produz para mais de 130 mercados distintos nos cinco continentes. As vendas para o exterior geram a esta indústria, das mais modernas e que mais evoluíram nos últimos anos no nosso país, qualquer coisa como 1300 milhões de euros por ano.
Carrie Bradshaw, em Sexo e a Cidade, deu corpo e alma ao protótipo da mulher que não resiste a um belo par de sapatos por mais dezenas de pares que tenha em casa.

Homens são consumidores exigentes

Mas os tempos são outros, e os homens tornaram-se consumidores cada vez mais ávidos e, no que à moda diz respeito, são exigentes e irreverentes. Não admira, por isso, que muitas marcas de calçado que nasceram para servir o público feminino, mais apto a abrir os cordões à bolsa para possuir muitos e variados pares de sapatos, tenha percebido o potencial que o universo masculino encerra e esteja agora a lançar linhas específicas para eles. O caso mais recente é a marca Atelier do Sapato.
Com os consumidores cada vez mais exigentes, o design tornou-se um requisito absolutamente decisivo e indispensável para que uma marca consiga afirmar-se e ser competitiva no mercado global a par, claro, de características fundamentais como a qualidade e o conforto. E não se pense que existe propriamente um design português. «Mais de 95 por cento do calçado nacional são propostas de moda verdadeiramente universais e são exportadas como tal. Aliás, várias são as marcas que têm parcerias com estilistas internacionais. Apesar de o sector absorver todos os anos os cerca de trinta alunos que terminam o curso do Centro de Formação do Calçado, não deixam também de contratar estilistas e agências de design estrangeiros de modo a ajustarem as suas colecções às especificidades de cada mercado», diz Paulo Gonçalves da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS).
E a verdade é que as empresas têm procurado apresentar colecções cada vez mais sofisticadas de modo a diferenciarem-se dos seus concorrentes. Confrontadas com a crescente concorrência dos mercados asiáticos, a indústria portuguesa apostou em migrar para segmentos de mercado de elevado valor acrescentado, ou mesmo de luxo. Basta ter em conta que o uso de pedras semipreciosas da Swarovski é quase «banal» para estilistas como Luís Onofre ou Miguel Vieira, e mesmo para outras marcas como Carlos Santos, e uma só dessas pedras daria para comprar um par de sapatos produzidos no Sudeste Asiático.

Sapatos personalizados
Calçado personalizado para casamentos, com o nome dos noivos, a data e o local da cerimónia inscritos nos sapatos foi a inovação apresentada por Miguel Vieira em Milão, em Março, na mais importante feira de calçado, a Micam. Já Luís Onofre apostou no lançamento de uma loja online para venda da sua marca. Não faltam marcas a perceber que o que está a dar é a preocupação com a natureza e que aproveitam a «onda verde» que grassa por esse mundo fora para lançar linhas ecológicas. Foi o caso da Fly London há algumas épocas, embora tenha depois descontinuado esta linha, e é agora a vez de a Mariano – marca que calça grandes nomes da política nacional, como Jorge Sampaio, Marques Mendes ou Manuel Pinho – apostar neste nicho. A empresa admite, no entanto, a dificuldade em arranjar peles ecológicas de qualidade em grandes quantidades.

Peles de raia, perca e crocodilo-bebé
E porque tudo o que é diferente vende, ou pelo menos o consumidor está disposto a pagar mais por isso, há um mercado em crescendo, sobretudo no estrangeiro, de peles exóticas. Todos os anos, em cada estação, há empresas a lançar colecções com as peles mais estranhas. Os sapatos de pele de raia ou de crocodilo-bebé não são nada comparados com os sapatos de pata de galinha que chegam a custar 1350 euros o par. O público a que se destina é o masculino e não faltam clientes, garante a Mariano, que os vende. A inovação mais recente desta marca foram os sapatos de perca do Nilo, recebidos na feira de Milão com surpresa.
Os sapatos portugueses são cada vez mais personalizados. E um dos elementos decisivos no desenvolvimento e produção do calçado actual são as solas, altamente sofisticadas e diferenciadoras, de tal forma que há empresas que têm fábricas de solas a trabalhar exclusivamente para si. Além disso, procedem à certificação de algumas das solas. «A questão da propriedade intelectual assume aqui um papel fundamental. Há solas exclusivas e joga-se muito nisso», frisa Paulo Gonçalves. A J Sampaio & Irmão, proprietária da marca Eject, que calça alguns dos nomes mais sonantes da conhecida série televisiva Morangos com Açúcar, é a única empresa de calçado em Portugal certificada em inovação. Uma prova da investigação que tem desenvolvido ao nível, por exemplo, dos tacões que não fazem barulho, das palmilhas que evitam a transpiração ou das solas de borracha patenteadas.

Sector em crescimento
Em contraciclo com o resto da economia, o calçado continua a registar crescimento da produção e da carteira de encomendas. Para Paulo Gonçalves, esse é o resultado do caminho traçado ao longo das últimas décadas pelos industriais do sector. «Sapatos bonitos, com valor acrescentando, ajudam a contornar a crise», diz Ademar Silva, da Harlot. Paulo Gonçalves reitera: «O design é tão fundamental que o incorporamos na nova imagem internacional do calçado português – Shoes designed by the future – que tem sido amplamente divulgado no plano internacional». E acrescenta: «A Move On pode apresentar um design tão ou mais sofisticado quanto o Luís Onofre, mas em segmentos de mercado diferenciados. Conforto versus luxo.»

Atelier do Sapato chega ao segmento masculino
A  Atelier do Sapato é a prova de que o segmento masculino está em alta. Lançada há três anos e meio, a marca posiciona-se num segmento de mercado alto. José Machado acredita que chegou o momento de apostar no calçado de homem. As recentes incursões em novas gamas de produto, com a introdução de carteiras de senhora e sacos de viagem, foram muito bem-sucedidas, diz, e agora chegou o momento de conquistar o público masculino.
Tal como a colecção de senhora, a de homem, ainda algo restrita, foi desenvolvida em parceria com um designer holandês e é composta por três grupos de calçado – os sneakers, de sola de borracha, para o dia-a-dia de um segmento mais jovem; a linha de fim-de-semana composta de um sapato mais clássico, com solas de couro e cores suaves; e a linha mais fashion com solas fortes e uma componente muito marcada de moda. José Machado admite que o segmento de homem será um nicho de mercado para a Atelier do Sapato, mas não quer deixar de marcar presença num segmento que se mostra cada vez mais exigente. Destinado ao homem de negócios acima dos 35 anos, a colecção chega às lojas a partir de Janeiro do próximo ano. «Temos a expectativa de vender dois mil pares na primeira época», diz José Machado.

Profession Bottier aposta na internet
Da amizade de longa data entre os sócios fundadores da Ferreira, Avelar & Irmão e um designer francês, radicado há trinta anos em Portugal, nasceu a Profession Bottier. Uma colecção de calçado destinada ao homem de negócios, de espírito dinâmico e arrojado, que sai do emprego e vai aproveitar a vida. Rúben Avelar garante que o homem é, cada vez mais, um consumidor de calçado e de outros acessórios de moda, alteração que sentiu especialmente nos últimos quatro anos. «Hoje, o homem absorve produtos diferentes, de cor. O verde, o laranja… as cores claras, impensáveis em calçado de homem há uns anos, são as que mais se vendem hoje, já não é só o preto e o castanho», diz.
Pena é que o calçado Profession Bottier quase não se encontre disponível no retalho nacional. Há uma ínfima presença da marca na cadeia Agostini, e mesmo assim só nas lojas do Norte. «Há muitos retalhistas que nos visitam nas feiras mas têm medo de apostar na marca pelo preço, que ronda os 150 a trezentos euros na venda ao consumidor», diz Rúben Avelar. Algo que poderá mudar com a abertura da loja online até ao início de 2011. A empresa está à procura da melhor plataforma e do melhor grafismo, de um espaço online que se direccionará, em termos de marketing, colecções e preços, para os seus principais mercados, o francês e o alemão, mas estará, naturalmente, acessível a todos os consumidores.

A criatividade da Vírus e Chocolate
Aliar a vertente moda ao conforto para que a mulher se sinta bem a usar os sapatos o dia todo para ir trabalhar e para depois ir sair ou jantar fora é o que pretende a Vírus Moda e a Chocolate Negro através dos materiais suaves, peles macias, saltos de altura média e solas flexíveis. Tudo embrulhado em muito design e moda, diz Miguel Oliveira, da AS – Indústria de Calçado, proprietária de ambas as marcas. A Chocolate Negro é uma das apostas mais recentes da empresa – o último lançamento foi a 2 by Vírus, linha vocacionada para o conforto criada especificamente para os mercados francês, belga e alemão -, lançada há ano e meio que veio abranger um nicho de mercado de uma mulher mais jovem e mais arrojada.
Além da Europa, Miguel Oliveira vende para a Austrália, Nova Zelândia, Japão, Canadá e adicionou recentemente os EUA à sua carteira de clientes. E defende que dinamismo e criatividade são segredos fundamentais para o sucesso. «Temos de querer sempre mais e melhor. Não podemos ficar satisfeitos com uma colecção normal, temos de querer ser diferentes, ter o nosso próprio produto, a nossa própria imagem. E a nível comercial, é fundamental ter as encomendas cobertas por seguros de crédito», diz Miguel Oliveira, que conta com dois designers e três técnicos de desenho técnico a trabalhar nas colecções.

Carlos Santos, o luxo em forma de sapato
Ouro nas fivelas ou diamantes na ponta dos atacadores são, apenas, alguns dos pormenores que fazem a diferença na colecção Carlos Santos. E a atenção que dispensam aos pormenores faz toda a diferença no segmento de luxo em que se move a Zarco, que recentemente substituiu a sua marca de longos anos, a Mack James, com créditos firmados no mercado, pela marca com o nome do fundador da empresa. «Produzir bons sapatos é parte ciência, parte arte e uma inteira parte de paixão e orgulho», diz Carlos Santos na apresentação da sua colecção. Com ou sem crise no mundo, o empresário acredita que o homem exigente, que procura sapatos Carlos Santos precisamente pela combinação do uso da tecnologia com os mais antigos e artesanais métodos na produção, vai continuar a existir sempre.
As colecções Carlos Santos são desenhadas pelos designers francês e italiano que trabalham com a Zarco, em parceria com o gabinete de modelação da empresa e com a própria gerência. «Todas as colecções apresentam pormenores para cativar o cliente, seja pelas cores, pelas formas em madeira que acompanham o sapato, ou pelo uso de brilhantes da Swarovski, de peles inovadoras, como a pele de peixe, etc. Estamos a pensar em trabalhar com ouro na fivela ou com diamante na ponta dos atacadores… São pormenores, mas são vitais na imagem da empresa e para criar aquele “distúrbio” necessário no lançamento das colecções», diz Armando Santos, filho do fundador.

Harlot para a mulher que valoriza os acessórios
É das marcas portuguesas mais conceituadas além-fronteiras e resulta da parceria entre a Fábrica de Calçado Meigo, de São João da Madeira, e os designers Carol e Perry King, que estiveram na origem da Fly London, outro dos ícones da moda nacional no que aos pés diz respeito. Questionado sobre a razão da associação aos estilistas ingleses, Ademar Silva, sócio-gerente da empresa, responde com outra pergunta: «Quem é que vive sozinho no mundo? O mundo é uma sistemática troca de informação e eu tenho de estar numa permanente dialéctica com o mercado.» Desta parceria resulta uma colecção cuja filosofia assenta na convicção de que «mais do que sapatos, a Harlot oferece acessórios de moda». A mais-valia da marca – que está finalmente disponível no mercado nacional com uma loja online no site contact+, o mesmo que criou a loja online de Luís Onofre, diz Ademar Silva – «é o ser de tal forma elaborada a nível do conceito e do design que ninguém os consegue copiar». «Podem até copiar um pormenor ou outro, mas o sapato completo não conseguem, o que me permite fazer o preço que quero, com bom senso, claro, e ter os clientes que quero», acrescenta. Diferenciação é a palavra de ordem, sobretudo numa lógica de nicho de mercado.

Fonte: Jornal de Noticias

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2016-12-01T15:39:14+00:00 17/10/2010|Categorias: Portugal|0 comentários
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