Num ano marcado por uma forte recessão, as vendas das 500 M&M foram penalizadas, mas os lucros subiram 11,9%, com forte recuperação da rentabilidade.

Uma forte recessão. Essa é a melhor maneira de descrever a evolução da economia portuguesa em 2009, num quadro marcado pela mais profunda e sincronizada crise internacional do período pós-guerra. Sobretudo no primeiro semestre do ano, a elevada incerteza e aversão ao risco ditaram quedas abrutas nos fluxos comerciais e na atividade das economias tanto avançadas, como emergentes, ou em desenvolvimento.

“A forte deterioração económica a nível mundial – com o potencial de se poder transformar numa segunda grande depressão por via de uma espiral de efeitos sistémicos decorrentes da interação entre as crises económica e financeira – gerou uma resposta sem precedentes das autoridades monetárias e dos governos”, destaca o Relatório Anual 2009 do Banco de Portugal. Só esta intervenção concertada, adotando medidas extraordinárias que contribuíram para estimular a economia e fortalecer o sistema financeiro, evitaram o pior, conduzindo a uma recuperação na segunda metade do ano.

O conjunto de choques a nível internacional, sobretudo de índole negativa, transmitiu-se à economia lusa, levando o produto interno bruto (PIB) a recuar 2,6%, traduzindo a recessão mais profunda das últimas três décadas em Portugal, o que ilustra as dificuldades que as empresas tiveram de enfrentar. Mesmo assim, a queda da atividade em território nacional foi inferior à observada na maioria das economias desenvolvidas, devido à ausência de uma situação de sobrevalorização no mercado imobiliário e a “posição relativamente do sistema bancário no quadro europeu”, aponta o referido relatório do Banco de Portugal.
´
A contração da atividade em Portugal esteve associada à redução do consumo privado, em 1%, e das exportações, em 11,8%. Neste contexto difícil, era inevitável que o volume de negócios das empresas fosse afetado. O que se confirmou na realidade. As vendas conjuntas do grupo das 500 Maiores & Melhores (500 M&M) empresas a operar em Portugal diminuíram 8,1% no ano passado, para 108,83 mil milhões de euros. Para lidar com a menor procura, as companhias anularam ou adiaram projetos de investimento – a Formação Bruta de Capital Fixo caiu 11,9%, em Portugal – e implementaram programas de redução de custos. Resultado? Os lucros conjuntos das 500 M&M subiram 11,9%, para 5,4 mil milhões de euros.

Negócios mais rentáveis

O aumento dos lucros seguiu a par da forte melhoria da rentabilidade das 500 M&M face a 2008. Aos mais diversos níveis. A rentabilidade das vendas (rácio entre resultados correntes e vendas), por exemplo, subiu 1,5 pontos percentuais, de 4,48%, para 5,99%. Um valor muito próximo dos 6,03% registados em 2007, ano em que a economia portuguesa registou um dos maiores crescimentos da última década, com uma expansão do PIB de 1,9%.

A evolução positiva foi comum na rentabilidade do capital próprio (quociente entre resultados líquidos e capitais próprios), que inverteu a tendência de queda que remontava a 2007, subindo 1,52 pontos percentuais em 2009 face a 2008, para 13,07%. Um nível apreciável de remuneração do capital. Por fim, a rentabilidade do ativo (relação entre resultados líquidos e ativo) aumentou 0,42 pontos percentuais, passando de 3,52%, em 2008, para 3,94%, em 2009. Apesar da melhoria, estes dois indicadores mantêm-se ainda longe dos valores registados em 2007.

O aumento da rentabilidade das 500 M&M em 2009, um ano de recessão, assi¬nala a preocupação das companhias em garantirem a sustentabilidade futura do seu negócio. Até porque sem rentabilidade não há investidores nem investimento, e sem investimento não há empresas.

Mais emprego

O incremento da rentabilidade das 500 M&M, em cuja base esteve, muitas vezes, programas de corte de custos, não passou, em 2009, por redução de funcionários. Pelo contrário. O número total de empregados subiu quase 30 mil, para 401 115 pessoas. Uma evolução assinalável num ano em que a população empregada em Portugal recuou 2,8% e a taxa de desemprego subiu quase dois pontos percentuais face a 2008, para 9,5%. A conjugação destes números significou novo reforço do peso das 500 M&M no mercado de trabalho luso. Em 2007, absorviam 6,2% da população empregada total, subindo para 7,2%, em 2008, e 8%, em 2009.

O peso das 500 M&M na economia portuguesa não se esgota no emprego. A relevância destas companhias no tecido empresarial luso é determinante. Basta notar que as vendas globais em 2009 ascenderam a 64,7% do PIB português a preços de mercado desse ano. Considerando o ativo conjunto, o peso foi ainda maior, ascendendo, em 2009, a 81,6% do PIB.

Quanto ao contributo do grupo das 500 M&M para os cofres públicos, considerando apenas o imposto sobre o rendimento do exercício, atingiu 1337,5 milhões de euros, recuando 4,5% face a 2008, apesar da subida de 11,9% dos lucros conjuntos.

Prejuízos minoritários

O ranking das 500 maiores empresas em Portugal, ordenadas pela sua faturação, foi mais uma vez liderado pela Petrogal, bem acima da Modelo-Continente, que voltou a ser a segunda classificada. Contudo, a distância diminuiu de forma considerável. Enquanto em 2008 as vendas da empresa do grupo Galp Energia eram mais do triplo da faturação da companhia do grupo Sonae, em 2009 foram pouco mais do dobro.

Tudo por causa de uma evolução díspar. Enquanto as vendas da Petrogal recuaram 31,6%, para 6,5 mil milhões de euros, penalizadas pela queda do preço dos combustíveis e pelo menor consumo, devido à conjuntura de recessão em Portugal e a nível internacional, as da Modelo-Continente subiram 5,7%, para 3 mil milhões. No terceiro lugar da tabela ficou outra empresa de grande distribuição, a Pingo Doce. A faturação da companhia do grupo Jerónimo Martins aumentou 26,9%, para 2,7 mil milhões de euros.

A tendência de queda das vendas foi comum à maioria das empresas do grupo das 500 M&M: 278, isto é 56% do total, registaram uma redução da faturação. Mas, mesmo assim, num ano de recessão, as restantes 222 (44% do total) conseguiram incrementar o volume de negócios. Mais: para 111 firmas o crescimento foi a dois dígitos.

Os prejuízos voltaram a ser minoritários entre as 500 M&M. Mais: diminuíram face a 2008. No ano passado, apenas 93 empresas (18,6% do total) deste ranking registaram resultados no vermelho, menos 11 firmas do que em 2008. No topo desta lista negra ficou a Rede Ferroviária Nacional – Refer. A empresa de capitais públicos teve resultados negativos de 112,8 milhões de euros.

No extremo oposto, a empresa com maiores lucros voltou a ser a EDP – Energias de Portugal, com 610,2 milhões de euros. Seguiram-se a TMN – Telecomunicações Móveis Nacionais (503,2 milhões) e a EDP – Gestão da produção de Energia (344,7 milhões).
Quanto à evolução dos resultados líquidos entre as empresas do grupo das 500 M&M, 224, isto é, 44,8% do total, viram os lucros cair, enquanto as restantes registaram crescimentos. E, para 238 companhias, a expansão dos lucros atingiu dois dígitos.

Sustentabilidade em causa

A análise dos indicadores de sustentabilidade financeira do grupo das 500 M&M é menos positiva. Apesar da crise, da redução do investimento, e de condições mais restritivas no acesso ao crédito, praticadas pelos bancos, o endividamento (rácio entre passivo e ativo) deste conjunto de empresas voltou a subir. Aliás, tem aumentado de forma continua nos últimos anos, passando de 67,2%, em 2006, para 69,8%, em 2009.

O endividamento não é o único indicador que ilustra a maior vulnerabilidade financeira das 500 M&M. Num contexto em que os investidores continuam a manifestar forte sensibilidade na aversão ao risco, notória na manutenção de spreads significativos nos mercados de dívida, a solvabilidade (quociente entre capital próprio e passivo) do grupo voltou a diminuir, prosseguindo uma tendência também com vários anos. Este rácio desceu de 48,8%, em 2006, para 43,1%, em 2009.

Por fim, a capacidade das 500 M&M para enfrentarem compromissos financeiros de curto prazo, também voltou a cair. Mais uma vez é uma tendência com vários anos. A liquidez geral, que relaciona o ativo circulante (ativos que não têm caráter duradouro ou permanente nas empresas, possuindo maior liquidez, e de que são exemplos os depósitos à ordem, as dívidas de clientes e as existências) e o passivo circulante (formado por todas as dívidas das companhias com prazo de pagamento até um ano) desceu de 127,5%, em 2006, para 103,4%, em 2009.

Nuvens no horizonte

Este ano, será, ao que tudo indica, de recuperação da atividade económica mundial e também portuguesa. O que aponta para uma evolução favorável dos negócios das empresas. O PIB luso deve expandir-se 1,2%, segundo a última previsão do Banco de Portugal, impulsionado pelo consumo (privado e público) e pelas exportações.
Mas, o pior pode estar ainda para vir. A crise da dívida soberana, que afetou Portugal e outros países periféricos da União Europeia colocou forte pressão na necessidade de ajustamento das contas públicas e do balanço dos agentes económico. Esse ajustamento vai sentir-se em força em 2011. E cobrar o seu preço.

“Estes desenvolvimentos tenderão a condicionar de forma decisiva a evolução da economia portuguesa”, frisa o Relatório Anual 2009 do Banco de Portugal. As consequências começam já a tornar-se visíveis. Ainda sem considerar o efeito das medidas de consolidação das finanças públicas, inscritas na proposta de lei do Orçamento do Estado para 2011, por ainda não estarem aprovadas, a instituição espera uma estagnação da atividade no próximo ano. Considerando esse impacte, será muito difícil Portugal escapar a nova recessão.

Fonte: Exame

Comentários

comentarios

2016-12-01T15:39:13+00:0005/11/2010|Categorias: Portugal|0 comentários
error: Segurança, acima de tudo! ;)