Desde o início do processo de privatizações do setor segurador e da liberalização do setor financeiro, iniciado em meados da década de oitenta do século passado, nunca foi tão urgente alertar a sociedade portuguesa para a crise que atravessa o setor dos seguros.

A relevância dos seguros no nosso quotidiano é demasiado importante para limitar este debate somente aos atores desta indústria, ou seja, às companhias de seguros, aos mediadores de seguros, aos peritos ou às entidades prestadoras de serviços directamente relacionadas com o setor.

Reflitamos sobre como poderia funcionar a sociedade sem um seguro de responsabilidade civil automóvel abrangendo todo o parque de viaturas existente: seria necessário uma litigância constante entre os cidadãos para solucionar o ressarcimento de danos causados pelos milhares de acidentes que ocorrem mensalmente.

Reflitamos sobre como poderia funcionar a sociedade sem o seguro de acidentes de trabalho garantindo ao trabalhador que, independentemente da situação financeira e da perenidade da empresa onde trabalha, caso tenha a fatalidade de sofrer um acidente que limite a sua capacidade futura, a assistência médica e a indemnização pela incapacidade atribuída estarão totalmente asseguradas até ao último dos seus dias.

Reflitamos sobre como poderia funcionar a sociedade sem um seguro de saúde que permite que as famílias possam recorrer, de forma célere, prática e económica, a sistemas alternativos ao Sistema Nacional de Saúde, reconhecida que é a sua incapacidade para a garantir à totalidade dos portugueses.

Reflitamos sobre como poderia funcionar a sociedade sem um seguro que proteja a habitação de cada família contra um evento catastrófico como por exemplo um incêndio, num contexto atual da sociedade portuguesa onde uma percentagem muito elevada das famílias se endividou através de crédito habitação para adquirir o seu lar, constituindo este um dos seus maiores ativos.

A relevância do setor dos seguros é inversamente proporcional à sua notoriedade ou à importância mediática que a sociedade lhe reserva. É um pouco como o oxigénio: apesar de tão decisivo para a vida de cada um de nós, não lhe atribuímos com frequência o devido valor.

Mas existem momentos na história das sociedades em que importa parar e medir se o equilíbrio dos ecossistemas importantes para a nossa vida estão garantidos, e conseguir gritar bem alto: PERIGO! O NOSSO ICEBERGUE ESTÁ A DERRETER ( parafraseando o pinguim Fred protagonista do livro que tem como título este grito de alerta).

O ciclo que estamos a atravessar, após a crise financeira iniciada nos Estados Unidos em 2008, que, no caso português, se traduziu numa profunda crise económica teve impactos fortes no setor segurador.

Passando por cima do detalhe da análise técnica e do jargão específico da indústria, o aspecto que importa reter é o seguinte: a prudência que caracterizou os gestores da área seguradora ao longo dos séculos foi ultrapassada por uma ânsia obsessiva por crescimento de quota de mercado, foco excessivo no ‘cash-flow’ de curto prazo, e a necessidade de satisfação a qualquer custo da exigência dos seus acionistas, mesmo que por vezes fossem economicamente irracionais.

No mercado português, a situação acima caracterizada leva a que, reconhecidamente, o setor esteja com um nível de reservas incapaz de fazer face às responsabilidades futuras dos acidentes de trabalho, esteja a caminho de uma insuficiência de reservas para fazer face às responsabilidades da responsabilidade civil automóvel, tenha uma exploração do seguro de saúde em muitas situações deficitária e não menos importante para a sociedade civil, que as reservas financeiras que garantem que o setor segurador possa funcionar de forma perene estejam em algumas situações investidos de forma imprudente.

Esta situação não é um problema que diga respeito somente à empresa A ou B,ou deva ser uma preocupação exclusiva do regulador. A inquietação deve ser de toda a sociedade, pois mais importante que a perenidade da companhia de seguros A, do mediador B, do perito C é a solidez de todo o setor dos seguros.

A ultrapassagem deste momento que caraterizamos como a maior crise dos últimos 30 anos requer uma actuação com duas linhas de força importantes e decisivas: a recuperação financeira do setor; a emergência de uma competitividade com ética
A primeira deverá ser realizada através de uma correcta avaliação e aceitação do risco que está a ser transferido para o mercado segurador.

Não é possível compreender como é que o preço de um seguro de responsabilidade civil é hoje inferior ao preço médio praticado em 1991!

É necessário que a sociedade tenha a exacta percepção de que o preço de um seguro de acidentes de trabalho é hoje insuficiente para fazer face às responsabilidade futuras de protecção dos trabalhadores.

É necessário rever o modelo de seguros de saúde vigente, apostando no desenvolvimento da prevenção e não focando somente as soluções na salvaguarda do consumo de atos médicos.

Esta alteração de comportamento faz-se num contexto de competitividade com ética entre as companhias de seguros e entre os mediadores na sua interacção com a sociedade.

Competitividade com ética é implementar uma estratégia perene com profissionalismo e focado no esclarecimento e serviço ao cliente. É respeitar um conjunto de regras de funcionamento do mercado que garantem a protecção dos clientes. É combater aqueles que focados num resultado imediato, procuram iludir os clientes com falsas promessas aproveitando a assimetria de informação, e contribuem para o aprofundar da crise do setor.

A APROSE, associação que federa os mediadores profissionais de seguros, está focada em ser um ator muito ativo neste movimento. A profissionalização do setor de modo a garantir à sociedade que um associado da APROSE é um mediador que exerce a sua acção de forma ética é o nosso desiderato. Contamos necessariamente com todos os nossos parceiros para esta longa caminhada de recuperação de um setor tão importante para a sociedade. Mas temos que agir: PERIGO! O NOSSO ICEBERGUE ESTÁ A DERRETER!

 Fonte: Económico

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