O Governo aumentou o capital da Caixa Geral de Depósitos em 550 milhões de euros no último dia do ano.

Foi mais um – o quarto em três anos – para responder a um equívoco que o accionista teima em não resolver: a Caixa é um banco comercial, um banco público de investimento para entrar nas empresas que o Governo considera estratégicas ou um banco de desenvolvimento – e salvação – da economia portuguesa?

Em primeiro lugar, a forma: mais uma vez, como sucedeu recentemente com a venda do edifício-sede do banco ao seu fundo de pensões, a escolha do último dia do ano, num fim-de-semana atípico, dá a ideia de que o Governo e a administração da Caixa têm algo a esconder. Tendo em atenção o facto de ser um banco público, e de sermos todos nós os seus accionistas, exigia-se outra transparência.

Fica a substância: O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, tinha avisado há algumas semanas que a banca nacional precisaria de reforçar os seus capitais, porque a crise económica já está a fazer-se sentir e porque as regras internacionais de Basileia são mais exigentes. A banca e os banqueiros reagiram mal aos conselhos do governador, mas a Caixa acabou por inaugurar esta nova fase do sistema financeiro português. E percebe-se porquê. Não há rácios, nem capital, que resistam a uma orientação de salvar ou tentar salvar tudo o que ‘mexe’, de acumular participações estratégicas em empresas de grande dimensão, de entrar em mercados internacionais numa lógica de ‘Estado’ e de, somado a isto, continuar a financiar a economia a um preço competitivo. Além do crédito de 4,6 mil milhões ao BPN, claro.

A ambiguidade de acção da Caixa não é de hoje, mas revela-se mais problemática em momentos de crise económica e financeira. O Governo exige que o banco público tenha o dom da ubiquidade financeira, esteja em todo o lado ao mesmo tempo, e isso só é possível se o accionista – isto é, os contribuintes portugueses – meter mais e mais dinheiro. Mas esse objectivo não é conciliável com uma actividade de banca comercial pura. Com este aumento de capital, diz a Caixa, os rácios financeiros, leia-se as almofadas de segurança para responder a uma crise, são confortáveis. Até quando? Provavelmente, estes 550 milhões não serão suficientes para o ano de 2011, até porque, depois, o mesmo Estado (e Governo) exige que a Caixa pague dividendos, compondo, assim, as receitas públicas. A Caixa vai ter de vender activos, e veremos a que preço.

Faria de Oliveira terminou o primeiro mandato no último dia do ano e, provavelmente, não passará da assembleia-geral do banco, em Março. Qualquer que venha a ser a nova administração, seria uma óptima oportunidade para clarificar o que o Governo quer do banco público. Até agora, é tudo e não é nada, o que só pode dar maus resultados. Qualquer caminho é legítimo, mas tem de ser conhecido.

Fonte: Económico

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2011-01-03T18:51:25+00:0003/01/2011|Categorias: Portugal|0 comentários
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