O cliente pode escolher a marca que irá processar o pagamento nos terminais Multibanco, mas esse gesto arbitrário pode custar o triplo ao empresário.

Parte das despesas dos comerciantes em comissões bancárias passaram a estar na mão dos clientes com a alteração nos terminais Multibanco (TPA) ao terem de optar pela marca – Multibanco, Visa, Mastercard ou American Express – que irá processar o pagamento. O resultado desse gesto arbitrário e sem custos para o cliente pode ser afinal “desastroso” para o comerciante, pois pode pagar o triplo em comissões bancárias.

O alerta parte do ComparaJá.pt, um portal de consultoria financeira que comparou as Taxas de Serviço do Comerciante (TSC) propostas aos comerciantes por vários bancos e pela Unicre – a empresa que gere os contratos da Visa e da Mastercard em Portugal, visto que só a Caixa Geral de Depósitos e o BIC oferecem também contratos com essas marcas internacionais. A TSC cobrada pelos pagamentos na rede Multibanco é sempre mais baixa, exceto no novo tarifário da CDG, publicado há dias, que igualou a taxa (0,75%) em todas as marcas. Mesmo em pagamentos a débito na rede Visa ou na Mastercard, a TSC pode chegar a 2,35% do valor da transação. A crédito, as taxas nestas marcas podem chegar a 2,95%.

“Há uma enorme diferença entre TSC conforme a marca que o cliente irá selecionar no momento do pagamento, muitas vezes sem valorizar esse gesto, e o comerciante é que vai arcar com esse custo”, alerta Sérgio Pereira, diretor-geral do ComparaJá.pt. “Na hora de contratualizar um TPA, os comerciantes devem comparar as diferentes ofertas existentes no mercado de forma a escolher a alternativa mais competitiva para o seu negócio, isto, olhando não só os custos de instalação e manutenção, mas também das comissões associadas às diferentes transações”, conclui Sérgio Pereira.

A nível prático, vejamos as simulações de comissões para uma compra de 40€, que equivale ao valor médio das compras pagas através de TPA em Portugal. Se o comerciante tiver um terminal da CGD e o cliente optar pela marca Multibanco, o comerciante vai pagar 0,30€ de comissão. A comissão sobe ligeiramente para um TPA do BCP: a mesma opção vai custar 0,36€. Se o TPA for do BIC ou do Novo Banco, conforme os contratos, a mesma comissão pode subir até 0,60€. Mas a maioria dos terminais não apresenta a opção “Multibanco” em primeiro lugar e basta o cliente não selecionar qualquer opção para o pagamento ser processado pela Visa ou Mastercard, mesmo a débito, para a mesma comissão poder subir para 0,94€ (BIC).

Estas diferenças percentuais em transações de baixo valor já são mais notórias no volume anual de transações pagas através de TPA. Em 10 mil euros de transações, a comodidade do TPA pode custar ao comerciante, só em comissões, 75€ (CGD, multibanco) ou 235€ (Visa ou Mastercard, BIC), ou seja, mais do triplo. Em 100 mil euros de faturação, a diferença nestes dois exemplos ascendem a 1600€.

“Alguns comerciantes já se aperceberam deste impacto e já começam a selecionar a opção Multibanco antes de entregar o TPA ao cliente para introdução do PIN, mas muitos estarão ainda por alertar”, comenta Sérgio Pereira.

Antecipar a opção do cliente

A associação de hotelaria e restauração (AHRESP) considera que há uma “ausência de informação e falta de transparência no processamento da operação” e alertou os associados que “a escolha por parte do consumidor da opção Visa/Mastercard poderia incorrer em custos com taxas de operações com cartões de crédito que podem ser o triplo das taxas com operações com cartões de débito quando o nosso cliente está a efetuar uma operação com cartão de débito”. Por isso, refere Pedro Carvalho, diretor do Departamento de Investigação, Planeamento e Estudos da AHRESP, aconselharam as “empresas a alertarem elas próprias os clientes no momento da opção a selecionar”. De facto, o que sucede com os cartões de débito é que o banco emissor coloca as marcas que irão processar o pagamento nos TPA numa ordem “de acordo com as preferências dos seus clientes”. A marca mais barata para os comerciantes (Multibanco) não surge em primeiro lugar nos terminais, induzindo o pagamento de taxas mais elevadas por parte do comerciante se nada for selecionado pelo cliente.

Bancos justificam-se

“Os nossos cartões têm definida uma sequência em que primeiro é apresentada a marca do ‘scheme’ internacional (Visa, Mastercard ou American Express) e, em segundo, a marca doméstica Multibanco”, adianta fonte do Novo Banco, que assegura ser essa “a preferência” que os seus “clientes titulares de cartões sempre manifestaram por marcas internacionais”.

O BCP tem comportamento idêntico: “O banco respeita a opção do cliente quando comprou o cartão. Ou seja: se o cliente escolheu um cartão Visa ou um Mastercard, essa é a marca que o cartão mostra no plástico e é também a marca que o TPA apresenta no ecrã, na 1.ª linha”.

Embora a alteração nos pagamentos com cartões bancários, introduzida no início de julho, parta de uma diretiva europeia e com a garantia de que não teria custos para os consumidores, as associações reclamam que não houve informação suficiente aos comerciantes. “Infelizmente, continuamos sem qualquer informação precisa sobre os verdadeiros custos que incorrem as nossas empresas, uma matéria em que o Banco de Portugal tem de intervir rapidamente, de forma a minimizar os efeitos gravosos que estas novas alterações já estão a provocar nas nossas empresas”, alerta Pedro Carvalho, da AHRESP.

Fonte: Dinheiro Vivo

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2016-12-01T15:37:39+00:0020/09/2016|Categorias: Portugal|Tags: , , , |0 comentários
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