O que esteve na origem da ctual crise económica e financeira? O que podem os portugueses esperar do sistema bancário nacional e até que ponto estão os seus depósitos salvaguardados? Qual o significado de conceitos que se tornararam de uso comum nos últimos meses, como “CDS” ou “haircut” da dívida? Ao longo de duas semanas os leitores perguntaram e o Negócios respondeu. Eis a súmula do que se questinou e se procurou explicar através do “Fórum Compreender a Crise”.

Esta crise que agora vivemos é o resultado de três crises

Sucintamente, quais foram as razões que estiveram na origem da crise que actualmente se vive em Portugal, tendo em conta o período anterior a 2009 até à conjuntura actual?

A verdade é que não pode falar-se de apenas uma crise. Na realidade, foram três as crises registadas. Entre 2001 e 2008, por razões relativamente às quais ainda há pouco consenso, a economia portuguesa cresceu sistematicamente abaixo da economia europeia e acumulou uma série de desequilíbrios. Por exemplo, o desemprego avançou de forma acentuada e gerou-se um enorme défice externo, que chegou a ultrapassar os 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Já a crise de 2008/2009, também chamada de “Grande Recessão”, foi largamente importada. Os problemas do “subprime” (crédito de alto risco), que apareceram nos Estados Unidos, contaminaram a Europa e acabaram por chegar a Portugal sob a forma de menos vendas ao exterior. As famílias até não cortaram muito o seu consumo, mas os empresários mostraram-se receosos e adiaram decisões de investimento que, conjugadas com o menor dinamismo do sector exportador, atiraram a economia portuguesa para uma Recessão de 2,6%. Em circunstâncias normais, a história teria acabado aqui. Só que a quebra do PIB levou a uma queda recorde das receitas fiscais e a uma subida abrupta das despesas públicas (apoios às famílias e empresas). O resultado foi um défice de 9,3% do PIB. Nesse momento, os investidores passaram a estar mais atentos a Portugal, centrando-se nas suas fragilidades: dependência do exterior, pouca competitividade, más perspectivas de crescimento. Este “cocktail” levou à “terceira crise”, com os investidores internacionais cada vez mais relutantes em emprestar dinheiro não só ao Estado mas ao próprio sector privado. Até agora, o Banco Central Europeu tem garantido o acesso ao financiamento, mas existe o risco sério de que a torneira “seque” a qualquer momento e que Portugal deixe de conseguir obter crédito no exterior, o que, para uma economia que todos os anos pede emprestado cerca de 10% do valor da suaprodução, poderia levar a uma enorme recessão.

Os juros vão subir no próximo ano

Qual o risco do Banco Central Europeu subir os juros em 2011?

A probabilidade da autoridade monetária da Zona Euro elevar a taxa directora é bem real. É essa a perspectiva dos economistas, que acreditam que o aumento da inflação na região levará o BCE a actuar, através da subida do preço do dinheiro, pese embora alguns países da Zona Euro possam apresentar ainda taxas de crescimento negativas. A primeira revisão em alta da taxa de referência deveria acontecer já no início de 2011, mas perante os sinais de enfraquecimento da economia da região, os economistas têm vindo a adiar as suas previsões. A estimativa é de que o juro de suba para 1,25% no último trimestre do próximo ano.

Bancos centrais têm limite para criar moeda

Dinheiro para resgates, compra de dívida soberana, empréstimos aos bancos… De onde vem o dinheiro do BCE?

O BCE pura e simplesmente cria moeda – seja através da impressão de notas e cunhagem de moedas, seja pela via mais simples da creditação de depósitos nas contas dos bancos comerciais. Este é um privilégio do banco central de cada país (na Zona Euro é o BCE), razão pela qual é também chamado de “autoridade monetária”. Este sistema não pode ser usado sem alguma parcimónia, porque se a quantidade de moeda aumentar mais do que o número de bens e serviços, a inflação irá disparar. Neste momento, isso não acontece porque a moeda criada pelo Banco Central não está a circular convenientemente pela economia, o que “esteriliza” a inflação. Mas há vários economistas que alertam para o perigo de a expansão monetária poder conduzir, a prazo, a uma inflação galopante.

Taxa de juro média depende das ofertas feitas pelos bancos

Porque sobem as taxas de juro da dívida pública portuguesa quando aumenta a procura?

A lei da oferta e da procura aplica-se mais fielmente ao mercado secundário do que às emissões de novos títulos (o chamado mercado primário). No primeiro caso, tal como nas acções, as obrigações sobem (e, em simultâneo, os juros descem) quando a procura é maior do que a oferta. Já num leilão tudo depende das ofertas (“bids”) que são aceites pela agência (IGCP, no caso português). O rácio de procura é calculado pela proporção das ofertas aceites face às ofertas recebidas mas que, depois de aplicada a “taxa de corte”, ficaram de fora do montante colocado.

Quando a dívida leva um “corte de cabelo”

O que é um “haircut” da dívida?

O “haircut”, que em português corresponde a “corte de cabelo”, é uma percentagem que é subtraída ao valor nominal de um activo que esteja a ser utilizado como garantia colateral a uma dívida. A dimensão do “haircut” reflecte a percepção de risco associada à qualidade do activo. O activo pode ser de qualquer natureza, mas a expressão tem sido mais utilizada para ilustrar a deterioração da percepção de risco associada à dívida dos países da chamada “periferia” da Zona Euro. Em termos práticos, imagine-se uma situação em que um banco tem no seu balanço uma nota de dívida no valor de 1.000 milhões de euros de um país cuja qualidade do crédito está sob escrutínio. Ao aplicar-se o “haircut”, o valor do activo sofre uma desvalorização de 30%, na medida da estimativa de eventual incumprimento. Assumindo-se esse “haircut”, o banco poderá utilizar o activo como colateral para se financiar até um máximo de 700 milhões de euros. O “haircut” é também uma das soluções que pode ser adoptada num processo de reestruturação da dívida. Não sendo capaz de reembolsar as obrigações, um Estado pode tentar chegar a acordo com os credores para lhes pagar só uma percentagem do valor devido. Em vez de devolver 100, paga apenas 80, por exemplo. Foi esta possibilidade de perdas futuras que afastou os investidores dos países periféricos nas últimas semanas.

Fazer seguros contra risco de não pagamento de empréstimos

O que são os CDS?

Os “credit default swaps” (CDS) são instrumentos financeiros, geralmente não cotados, utilizados pelos investidores em obrigações como seguros contra a protecção do risco de incumprimento. Por exemplo, no decorrer da crise da dívida soberana assistiu-se a uma escalada dos custos dos CDS do País e das empresas, nomeadamente do sector financeiro, com os investidores a atribuírem uma maior probabilidade destas instituições não conseguirem fazer face às suas obrigações financeiras. Dizer que um CDS sobre a dívida portuguesa a cinco anos está a valer 500 pontos base significa que o investidor paga 500 mil euros por ano para proteger 10 milhões de euros em dívida a cinco anos.

Fazer seguros contra risco de não pagamento de empréstimos

Como funciona o mecanismo de formação das taxas de câmbio das diferentes moedas e de que instrumentos podem os países socorrer-se para contrariar a valorização/desvalorização das mesmas consoante os seus interesses de momento?

O câmbio de uma moeda – o seu preço nos mercados internacionais – varia precisamente da mesma forma que varia o preço de qualquer bem, serviço ou activo: através do equilíbrio entre oferta e procura. A questão a colocar é, portanto, o que determina a oferta e a procura de moeda. No que diz respeito à procura, ela é influenciada, por exemplo, pelo nível de taxas de juro reais – se forem mais altas, a moeda terá uma rendibilidade mais alta – e pelo crescimento económico da economia. Já a oferta é determinada pelo banco central: se o banco central de um país aumentar a moeda em circulação, esta vai desvalorizar face às outras. Para Portugal, contudo, nenhum destes mecanismos está disponível: é o Banco Central Europeu que faz a gestão da moeda e é à taxa de câmbio determinada pelas suas acções que Portugal tem de se conformar.

Histórico do país, robustez ecónomica e crescimento contam no “rating”

Porque é atribuído à França um “rating” “AAA” e ao nosso país um “rating” mais baixo? Por outro lado, o corte de “rating” a um banco pode impedir a obtenção de empréstimos junto do BCE?

As agências de “rating” olham essencialmente para quatro factores: desempenho histórico em termos orçamentais e económicos, situação actual das contas públicas, robustez da economia e perspectivas de crescimento. Portugal pontua pior que França na maioria dos indicadores. Portugal quebrou o limite de défice de 3% por três vezes na última década, contra duas vezes da França. Além disso, enquanto a economia de Sarkozy deverá crescer 1,6% já em 2011, Portugal caminha para a recessão. Importante é também considerar que a França é uma das maiores economias europeias sendo, por isso, mais resistente a choques. Apesar das diferenças, é argumentável que a distância medida pelas agências entre as dois países possa ser exagerada. Por exemplo, os níveis de dívida pública são semelhantes e as diferenças de crescimento pequenas. Alguns economistas consideram que, por um lado, estas empresas, privilegiam as economias maiores e, por outro, acabam por dar notas que correspondem mais à crença da maioria dos investidores do que a avaliações objectivas. Bancos, emopréstimos “rating” O acesso dos bancos a empréstimos do Banco Central Europeu não depende do “rating” que conseguem atingir, mas do facto de terem, ou não, colaterais para entregar em troca. Um colateral é um activo – normalmente um título de dívida pública – que serve de garantia ao BCE aquando das operações de cedência de liquidez. É verdade que só activos com um “rating” de topo são aceites pelo BCE como colaterais – e, por isso, um “downgrade” de alguns dos activos na posse dos bancos pode limitar o seu acesso ao financiamento do banco central. Contudo, o Banco Central Europeu pode alterar as suas regras em determinadas circunstâncias. Foi o que fez quando o “rating” da dívida grega desceu para “BBB”. A instituição decidiu actuar desta forma para não precipitar uma venda ao desbarato destes títulos, anunciando que os continuaria a aceitar como garantia.

Retoma segura, mas a velocidade duvidosa

A retoma assenta em várias plataformas que criam riqueza de uma forma articulada. A Europa está coesa para criar riqueza entre os seus Estados-membros de uma forma articulada?

Pela sua própria natureza, os ciclos económicos compreendem fases de contracção que acabam necessariamente por terminar e dar azo a períodos de expansão. O crescimento acabará, assim, por voltar. Questão diferente é saber se o enquadramento institucional e político europeu é, neste momento, o mais propício a tornar a fase descendente do ciclo tão curta quanto possível. E aqui é possível apontar falhas ao projecto europeu: por exemplo, começa a ganhar força a ideia de que o processo de criação da moeda única devia ter previsto mecanismos de estabilização caso alguns países ficassem em situação financeira complicada. Também pode ser apontado o dedo à falta de coordenação entre os líderes europeus, o que mina a posição da Zona Euro nos palcos internacionais, e vários economistas criticam o acumular de desequilíbrios externos dentro da própria União Monetária. Encontrar soluções, contudo, é mais difícil do que identificar os problemas.

Risco da dívida está ligado ao “risco” do País

Em qualquer cenário de colapso do sistema financeiro português ou mesmo da Zona Euro, há algum risco para quem investe em certificados do Tesouro?

Os certificados do Tesouro são um produto de poupança criado pelo Estado, sem risco de preço ou liquidez, que garante ao investidor o montante inicial e os juros pagos em cada ano. O capital investido está garantido pelo Estado. Ou seja, o risco associado ao investimento em certificados do Tesouro está relacionado com o risco do emitente, neste caso do Estado português. As autoridades europeias têm movido esforços no sentido de assegurar que nenhum país da Zona Euro entrará em incumprimento, como é o caso do Fundo Europeu de Estabilização Financeiro, criado em Maio, e que foi utilizado na ajuda à Grécia. Mais recentemente, a Irlanda pediu auxílio aos seus parceiros. O risco de incumprimento de Portugal é, assim, baixo. Contudo, o senso comum do investimento recomenda uma dispersão dos investimentos por vários instrumentos.

Depósitos nos bancos portugueses estão seguros

Existirá o risco de chegarmos ao ponto de nos ser negado o levantamento de dinheiro, quer nas ATM, quer nos próprios balcões dos bancos?

Em teoria, uma crise bancária extrema pode, de facto, levar à impossibilidade de levantar os seus depósitos. A corrida ao dinheiro que está depositado nos bancos – e falência subsequente de inúmeras instituições – aconteceu várias vezes durante a “Grande Depressão”. Na prática, contudo, é altamente improvável que a situação chegue em Portugal a esse ponto. Por outro lado, há um Fundo de Garantia de Depósitos e, se tudo o mais falhar, o Banco Central Europeu continua a ter uma política monetária extremamente flexível – empresta a uma taxa de juro de 1%, sem limites no que diz respeito aos montantes a colocar. No caso concreto de Portugal, também é importante salientar que a banca nacional apresenta uma situação bastante sólida.

Fonte: Negócios

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2016-12-01T15:39:10+00:0023/12/2010|Categorias: Geral|2 Comments
error: Segurança, acima de tudo! ;)